
Meu barco está parado, ancorado em um porto seguro, pacífico, longe do turbilhão de uma cidade grande. Mas meu mar interno não é assim tão tranquilo. Há ainda um turbilhão que preciso observar, compreender e, muitas vezes, apaziguar. Hoje, tenho mais consciência dos meus processos e já não os deixo simplesmente livres e soltos, conduzindo-me para onde querem.
Tudo é hábito. E hoje, estudante que sou de mim mesma, do estoicismo e de tantos outros “ismos”, converso muito comigo. Talvez seja uma das melhores conversas que aprendi a ter.
Nunca pensei que chegaria até aqui, tampouco imaginava o que estaria fazendo nesta idade. Talvez o futuro distante nunca tenha sido, de fato, uma preocupação para mim. Sempre me ocupei mais de resolver as pendências, atravessar o que estava diante de mim e olhar para o que viria a seguir. Nem sempre plenamente presente, é verdade — mas atenta ao próximo passo.
Hoje me sinto mais calma, mais segura de mim e imensamente grata por tudo o que a vida me deu e também pelo que me tirou.
Como assim? Grata pelo que me tirou?
Sim. Se me tirou, é porque um dia tive. Tive a bênção de viver aquilo por anos, enquanto tantos nunca tiveram a oportunidade de experimentar sequer uma parte do que experimentei.
Tive o sonho, a magia, o espetáculo e também a tragédia. E procuro retirar de tudo o que vivi alguma lição, alguma luz que possa iluminar o caminho que ainda me resta percorrer.
Medo do futuro? Da morte? Realmente, não.
Não penso nela, embora saiba que virá. E, quando vier, espero que seja rápida e sem sofrimento — para mim e para os que estiverem ao meu lado.
Estou preparada? Não sei. Gosto de viver. E ainda sinto que há coisas que gostaria de ter, experiências que gostaria de viver, lugares que ainda quero conhecer e pessoas que ainda podem cruzar meu caminho.
Talvez ainda amar. Ah, o amor…
Ele ilumina a vida, nossas escolhas, nossa alma. E meus amores foram difíceis. Nunca é fácil amar. Foram marcantes, desestruturantes, algumas vezes dolorosos e, certamente, inesquecíveis.
Hoje já não me iludo com o amor romântico, idealizado, desses que parecem existir apenas nas histórias que inventamos para nós mesmos. Mas ainda me parece possível desejar alguém com quem exista troca — espiritual, física e mental. Alguém que respeite meus limites, minha independência e minha individualidade. Alguém com quem eu possa caminhar lado a lado, sem que precisemos necessariamente seguir a mesma rota o tempo todo.
Juntos, mas não presos. Próximos, mas livres. Talvez seja utópico.
Mas é lindo. E talvez seja justamente assim que os nossos sonhos mais loucos funcionem: não precisam ser prováveis para serem desejáveis.
Meu barco está ancorado. Mas não está condenado a permanecer no porto.
Há mares que ainda não conheço, portos onde ainda não cheguei, pessoas que ainda não encontrei e, quem sabe, algum amor que ainda não vivi.
Enquanto isso, sigo aqui. Aprendendo a navegar dentro de mim.
E sonhando. Porque, afinal, é tão bom sonhar…
HAICAI
Naufrágio de mim?
Não, foi só uma onda
Estou de volta
CIDA GUIMARÃES
20/08/26


