
Quem somos nós, afinal? Pergunta simples na forma, mas inquietante na essência — dessas que não se esgotam na primeira tentativa de resposta.
Somos tantos e tão diversos, e, hoje, são tantas novas denominações, que nos perdemos nas mudanças. Elas se multiplicam em todas as áreas — da tecnologia à vida humana — como se nomear fosse sempre suficiente para compreender.
Hoje temos a inteligência artificial, a realidade virtual e um progresso que não parece pedir licença para avançar. Mas não é apenas a tecnologia que se reinventa. Também os afetos, os vínculos e até a forma como nos apresentamos ao mundo mudaram de vocabulário.
Agora há “conversantes”, “ficantes”, “crushes”, “namorados” — cada etapa com sua própria categoria, como se o sentimento pr,ecisasse de degraus para ser reconhecido. Antes, talvez de forma mais direta ou ingênua, namorava-se para conhecer. Hoje, conhece-se depois de “ficar”, e ainda assim nem sempre isso basta para nomear o que se vive. E não paramos por aí.
Já não nos basta dizer masculino ou feminino. Somos convocados a acrescentar camadas: cisgênero, transgênero, binário, não binário… como se a linguagem desse conta, por si só, de toda a complexidade do ser. Mas será que dá?
Somos siglas ou somos gente?
O mundo parece apaixonado por categorias. Classificar dá a impressão de ordem, de compreensão, de controle. Mas há algo em nós que escapa continuamente a essa tentativa de encaixe. Algo que não se deixa domesticar por definições. Somos, talvez, indefiníveis — não por falta de estudo, mas por excesso de humanidade.
E então surgem também os diagnósticos, as nomenclaturas: TEA, TDAH, AH/SD, TOD… nomes que ajudam a compreender, a acolher, a orientar. Mas até que ponto explicam, de fato, a totalidade de alguém? Até onde o rótulo ilumina — e a partir de quando ele limita?
Talvez sejamos isso: uma soma de diferenças biológicas, emocionais, psíquicas, sociais. Uma combinação única, irrepetível, que resiste a qualquer tentativa de catalogação completa.
E, nesse sentido, o desafio não é nomear melhor, mas olhar melhor. Escutar melhor. Reconhecer o outro para além da etiqueta que ele carrega — ou que lhe é atribuída. Porque relações humanas não se sustentam apenas em definições. Sustentam-se em presença. E, no fim, talvez seja isso que mais importa.
Quem somos nós, afinal? Não uma resposta definitiva, mas uma pergunta que insiste. E ainda bem que insiste. Porque entre todas as tentativas de explicar, sobra sempre um resto — aquilo que não se traduz, não se encaixa, não se fecha.
Um espaço silencioso onde nenhuma sigla alcança.

O indizível em nós.
Como você responderia estas perguntas? Quem é você? Quem somos nós?
Cida Guimarães
27/06/26

