
“Fingimos que podemos amar sem que morram nossas ilusões. Fingimos que podemos prosseguir sem que nossas expectativas superficiais se desfaçam. Fingimos que podemos seguir adiante como se nossas emoções preferidas nunca fossem morrer.”
Essa é uma passagem em “Mulheres que Correm com os Lobos” de Clarissa Pinkola Estés , que estou relendo após mais de 30 anos. Naquela época, bastante conturbada, gostei da leitura, mas não consegui alcançar toda a sua profundidade e complexidade. Hoje, sinto-me mais preparada para compreender suas analogias, seus mitos e suas camadas simbólicas.
Quando a autora descreve o amor como a descoberta acidental de um tesouro, ela também nos apresenta a difícil tarefa de entender o ciclo vida–morte–vida dentro de um relacionamento — assim como acontece com os sonhos.
No início, nos deslumbramos. Queremos desvendar todos os mistérios, acreditamos na permanência do encanto. Mas, quando as ilusões começam a ruir, inicia-se a fase dos questionamentos, das inseguranças. Algo começa a morrer — e é justamente o sonho idealizado, a expectativa irreal.
Nesse momento, somos convidados a escolher: ou abraçamos a realidade, reconhecendo o que ela ainda tem de belo e possível, reacendendo a admiração em bases mais verdadeiras… ou deixamos que tudo se desfaça. Já não há mais espaço para fingimentos. As máscaras caem. Resta o real, o tangível — e a coragem de lidar com ele.
Mas então surge a pergunta inevitável: qual é a solução?
Deixar de sonhar, de idealizar?
Creio que não. Sem isso, nos tornaríamos áridos, sem graça, sem horizontes.
O que nos cabe é encontrar equilíbrio: permitir que o imaginário exista, mas sustentado por um olhar lúcido. Questionar nossos devaneios, reconhecer suas bases, não permitir que nos afastem completamente da realidade.
Talvez o único território onde possamos exercer algum controle seja o que acontece dentro de nós — nossas emoções, nossas escolhas, a forma como elaboramos nossos sonhos e fantasias. Todo o resto escapa.
Amar, então, é também arriscar — mas com consciência.
Para que o amor, em sua dimensão mais profunda, possa viver, é preciso aceitar enterrar o que já não serve. Como na terra: o que era precisa se decompor para que o novo encontre espaço. É na renovação do solo, no adubo das experiências, que um novo broto pode surgir.
E só então — talvez — uma nova flor floresça. E talvez seja isso que também acontece com os nossos sonhos, com os lugares que idealizamos, com os trabalhos que imaginamos perfeitos, com a vida que desenhamos em linhas retas, como se o mundo obedecesse aos nossos planos.
Mas não. A vida não é linha. É movimento. É mais parecida com um tobogã — com suas curvas inesperadas, suas quedas abruptas, seus momentos de vertigem e, às vezes, de riso solto. A gente nunca desce exatamente como imaginou. E talvez esse seja o segredo: aprender a não resistir tanto ao percurso. No fim, tudo passa. As certezas, os medos, os encantos, as perdas.
O que fica — silencioso, mas essencial — é aquilo que fazemos com o que sentimos. É o que conseguimos transformar dentro de nós depois que o mundo, mais uma vez, nos mostrou que viver também é deixar morrer.
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Cida Guimarães
27/07/26


