
Em um instante qualquer, me peguei pensando em como passamos a vida erguendo castelos de areia… e assistindo, às vezes em silêncio, outras com espanto, ao seu lento desfazer pelas mãos do vento, pelo sopro das marés, pelo inevitável movimento da vida.
Meu primeiro castelo era feito de romance e fantasia. Havia príncipes encantados, cenários de sonho… e eu, uma bailarina.
Sim — eu dançava o mundo. E ainda danço, de outras formas.
O balé começou cedo, aos cinco anos, e seguiu comigo até os onze. Já me equilibrava nas pontas, leve e inteira, e me apresentava na escola, no teatro, em casa… como se cada gesto fosse uma forma de existir.
Mas a vida, por vezes, muda a música sem aviso. Aos onze anos, já à porta da mocidade, uma doença me fez parar. Foi um tempo de recolhimento — e de descobertas. Entre páginas e páginas, mergulhei na leitura, como quem aprende novos passos, mais silenciosos. E, sem perceber, fui me despedindo daquele sonho.
A puberdade também me trouxe outra consciência de mim mesma. Já não queria a luz sobre mim, nem o olhar de uma plateia. Passei a habitar mais o dentro do que o fora.
E assim foram surgindo outros castelos. Alguns erguidos com pressa, outros com cuidado. Muitos ruíram. Muitos doeram. Mas, curiosamente, nunca deixei de reconstruir.
Hoje compreendo: talvez viver seja isso — aceitar que os castelos não foram feitos para durar, mas para nos ensinar a sonhar, a criar, a recomeçar. E, quem sabe, com o tempo, a gente aprenda a construir não apenas sobre a areia… mas também dentro de si, onde nem o vento, nem as marés, nem o tempo conseguem apagar por inteiro aquilo que um dia foi verdade.
Cida Guimarães
19/06/26


