
Lendo O Existencialismo é um Humanismo de Jean Paul Sartre, me pego pensando: estamos aqui, lançados, sem manual, obrigados a escolher — e a sustentar o peso dessas escolhas.
Nossa essência começa em nossa existência, conforme Sartre defende?
Ou somos pura essência, antes de nosso existir? Não pedimos para nascer ou, segundo a linha que sigo, pedimos sim e até escolhemos a família onde iríamos tentar vencer os obstáculos e crescer?
Há vários momentos em que a vida me parece menos abrupta, menos solta no vazio, como se houvesse um fio invisível ligando experiências, encontros e perdas. Um “déjà vu”.
Fico então entre duas margens: de um lado, o silêncio do universo; de outro, a suspeita de um sentido que penso ser o que ressoa em mim, mas ainda não compreendo, integralmente. Creio que nossa essência não começa aqui. Talvez, não termine também. Gosto de imaginar que algo em nós é anterior — e permanece. Uma espécie de núcleo silencioso que atravessa o tempo, sendo, pouco a pouco, entrelaçado pelas experiências, pelas encarnações, pelas escolhas que fazemos e pelas que evitamos. Não intacto, mas também não perdido.
Se penso com Sartre , sou aquilo que faço de mim — sem garantias. Tenho liberdade de escolha e minha vida será um resultado das mesmas. Eu me construo a partir da minha existência. Se escuto minha voz interior , sou um espírito em percurso — aprendendo, ajustando, recomeçando. Tenho livre arbítrio, mas já há um caminho com bifurcações onde terei que escolher a rota a percorrer, e há uma essência minha anterior que, muitas vezes me guia numa ou outra direção.
Há uma energia e impulsos, que, a meu ver, são inatos.
Quando me aproximo de outras teorias , encaro a possibilidade de que talvez não haja resposta — e ainda assim, sigo. Entre essas vozes, não escolho uma única verdade. Talvez porque a vida, como a sinto, não se deixe reduzir a uma só.
Há momentos em que tudo parece absurdo — desconexo, injusto, sem lógica.
Mas há outros em que pequenos sentidos emergem: no encontro inesperado, na dor que ensina, na beleza que insiste em surgir mesmo quando nada a explica.
E se o absurdo não for negação de sentido, mas apenas o limite do que ainda conseguimos compreender? E se a liberdade de criar significado coexistir com um sentido maior que lentamente se revela?
Talvez sejamos isso: consciências em travessia, livres — mas não totalmente sós, incertas — mas não totalmente perdidas. A cada vida, a cada escolha, a cada queda, algo se escreve — não como destino rígido, mas como narrativa em construção. Uma trama onde o improviso e a memória se misturam.
No fim, talvez, não se trate de provar se há ou não um sentido último. Mas de caminhar como se cada passo importasse. Como se fôssemos, ao mesmo tempo, autores e aprendizes de uma história que não começou aqui —e que, silenciosamente, também não termina.
E mesmo quando o mundo parece não responder, há algo em nós que continua perguntando —e seguindo.
E você, como entende, como explica nosso ser, nosso existir? Ou não explica só sente e vive?
Me conta, adoraria saber.
Cida Guimarães
08/06/2026


