
Escrevendo, hoje, sobre flores, jardim, ciclos, pensei em quanto tempo ainda terei pela frente.
Mórbido? Não. Realista.
Medo da morte? Tampouco. Sei que é a única certeza que me acompanha — ela virá. Não sei quando, nem de que forma, e não me detenho nisso. Se posso pedir algo, apenas que seja breve, sem sofrimento. Mas não é sobre a morte que escrevo. É sobre o tempo.
Quando penso na minha finitude, acabo me perguntando: quanto ainda tenho para viajar, criar, viver? Talvez, sendo otimista, dez… quem sabe quinze anos — desde que venham com qualidade, com presença. E então me pergunto: o que ainda desejo?
Ver minhas filhas e netas alcançando seus caminhos. Quem sabe conhecer um bisneto — ou bisneta. Minha neta mais velha, Marina, fala que, talvez em 2029. Quem sabe??? Acredito que nos sentimos eternos quando nos vemos em nossos descendentes; então, ter um bisneto(a) é quase como eternizar nossa passagem na terra.
Penso em escrever mais alguns contos, poemas, histórias que fiquem como pequenos rastros de mim. Voltar a lugares que me marcaram e, ainda, conhecer aqueles que só existem no meu imaginário.
É muito? É loucura? Talvez. Mas sonhar nunca foi excesso.
Um desses lugares que me habitam é a Inglaterra. Já contei, em algum momento, sobre o curso que fiz em Nottingham, em 1989, e as viagens que fiz por lá. Anos depois, ganhei outra bolsa — dessa vez para Cambridge, aprofundando meus estudos em metodologia de ensino — e retornei ao país. Na realidade, fui muito abençoada pois viajei, (89,91,94) três anos, com bolsas de estudo, que ganhei em virtude de meu empenho, dedicação e trabalho. Claro que aproveitei para estender minha permanência, e conhecer outros países e/ou cidades.
Em 1989, já havia conhecido muitas cidades na Inglaterra, sempre fui apaixonada pelo interior: Lincoln, Coventry, Chester, York, Stratford upon Avon, Manchester… há uma beleza, que não se explica, apenas se sente.
Cambridge, por sua vez, é uma cidade viva e encantadora, a cerca de uma hora de Londres. Aproximadamente um terço de sua população é formada por estudantes. O rio Cam atravessa a cidade, passando sob pontes antigas e entre edifícios históricos — como o King’s College e o Fitzwilliam Museum — e é palco de uma tradição curiosa: o punting, aquele passeio em barcos de fundo chato, conduzidos com uma vara longa, deslizando lentamente pela água.


Guardo com carinho as horas na biblioteca, os fins de tarde de pub rounding, as laggers, as batatas recheadas, as pequenas viagens pelas redondezas. Fui a Bath e me encantei com os banhos romanos. Saudades… e a consciência de que, se eu voltar, nada será igual. As lembranças são fotografias de um tempo que não se repete — mas que, ainda assim, desejo revisitar.
No meu curso em Cambridge, fiquei hospedada na casa de uma família irlandesa, do sul — católicos, cordiais, mas de hábitos firmes. Tinham dois filhos: um menino de cerca de sete anos e um adolescente de dezesseis. O menor, Ian — se a memória não me trai — encantou-se comigo e com o Brasil. que sonhava em conhecer. O pai lhe disse que, então, deveria começar a economizar. Já juntava dinheiro para outra coisa, que hoje não recordo, creio que era um jogo, mas ali aprendi: nada vinha fácil.


Família irlandesa Alguns colegas de curso
Eu tinha direito ao café da manhã e ao jantar, sempre às 19h. Precisava avisar caso não fosse comparecer — e chegar no horário. Na primeira noite, ao chegar, fui recebida pelo filho mais velho. Mais tarde, quando os pais retornaram, conversamos, e a mãe, Patricia, perguntou se eu gostaria de comer algo. Educada, como fui criada, agradeci e disse que não era necessário. Ela não insistiu. Fui dormir com fome. Aprendi.
Vi, muitas vezes, um dos meninos pedir repetição, e a mãe responder, com firmeza, que já havia sido suficiente (you´ve had enough). Ainda assim, tive sorte: um quarto só para mim, um banheiro, e respeito. Pediram, apenas, que meus banhos fossem breves. Máximo 5´. O pai, já não recordo o nome era um pouco mais solto, e lembro que uma noite em que a mãe estava ausente, a trabalho, ele fez o jantar e aí, fizemos a festa. Total descontração! Repetições livres.
No primeiro dia, Patricia me levou até a faculdade, mas logo avisou que eu deveria alugar uma bicicleta para me locomover. E assim fiz. No início, receosa — depois, acostumada ao trajeto de cerca de vinte quilômetros entre a casa e a escola. Tinha um pouco de receio de um túnel que eu tinha que atravessar, e de sinalizar, como eu via outros ciclistas fazerem, mas aos poucos, superei.
As manhãs eram brancas. A cidade coberta de neve tinha uma beleza silenciosa — menos encantadora para quem precisava limpar vidros e calçadas. Naquele período, houve apenas uma nevasca mais intensa. Eu adorava os “clam chowder” ( uma sopa de frutos do mar, com uma cama de pão embaixo e em cima queijo derretido); também amei “Yorkshire pudding”, um acompanhamento salgado, tipo bolo, perfeito de rosbife; Patricia servia, também, uma torta de Natal, possível de ser preservada ao longo do ano— sempre uma fatia de sobremesa. Eu retribuía ajudando com a louça.
Acredito que tive sorte. Eles não eram expansivos, mas eram justos — e melhores do que muitas das histórias de famílias, que ouvi de colegas que ficaram em casas menos acolhedoras.
Foi uma experiência marcante. E, hoje, ao pensar no tempo que ainda tenho, percebo que talvez não seja apenas sobre voltar aos lugares — mas sobre reconhecer que eles nunca deixaram de viver em mim.
Porque, no fim, o tempo não leva tudo. Algumas coisas ficam —como pequenas luzes acesas dentro da memória, esperando, silenciosas, que a gente as revisite, não com os pés, mas com o coração. 🌿
Cida Guimarães
21/06/26

