
Em uma aula do meu Clube de Leitura, o professor fez uma colocação, que ficou ecoando em mim…
Há que buscar nossa autossuficiência (do grego, autarkéia). Não podemos depender do mundo; precisamos encontrar dentro de nós aquilo que, à primeira vista, parece faltar.
Só assim escapamos do pêndulo do desejo: a ânsia de ter e o tédio de possuir — que transforma a felicidade em um raro oásis no deserto.

E como isso é verdadeiro! Estamos sempre em busca: de algo, de alguém, de um sentido que nos preencha. Mas, talvez, o que procuramos nunca tenha estado fora.
Há um caminho silencioso que conduz para dentro. E é nele que, pouco a pouco, nos tornamos mais livres — e, quem sabe, mais próximos de uma felicidade que não oscila ao sabor do mundo. Está dentro de nós.
Interrompemos o ciclo repetitivo de: insatisfação> busca>insatisfação. Algo cansa. E, talvez, nesse cansaço lúcido, surja um desvio: perceber que o quê buscamos não está fora.
Que a ausência é construída, que o vazio é alimentado, que a busca incessante é o que nos afasta.
E então, quase sem alarde, interrompe-se o movimento. O olhar retorna. O instante se amplia. E o que antes parecia pouco revela-se suficiente.
Talvez a felicidade não chegue — ela é reconhecida.
E sempre esteve, silenciosa, à espera de ser habitada.
Felicidade, onde estás?
Felicidade… onde te escondes?
No depois, no longe, no quase —raramente no agora.
Persigo-te como quem persegue um reflexo: quando penso tocar-te,
já te transformaste em outra coisa. E, quando vens, não és inteira —
és filtrada pelo que imaginei, diminuída pelo que esperei.
Serás ilusão? Ou sou eu que nunca sei habitar o instante?
Há sempre um resto, um ruído, um desejo que desloca o presente
para um lugar onde ele nunca está. E assim sigo — entre o que é e o que insisto que deveria ser.
Mas talvez… a felicidade não seja um lugar, nem uma promessa, nem sequer um encontro.
Talvez seja rendição. Um silenciar das faltas.
Um cessar da busca. E, nesse raro intervalo,
quando nada mais é exigido do instante — ela, discreta, já estava.
Cida Guimarães
24/06/26
Alguns pensamentos sobre a Felicidade:
Aristóteles: “A felicidade é algo perfeito e autossuficiente, sendo o fim de todas as nossas ações.”
Epicuro: “Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco.”
Sêneca: “A felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação.”

