
Parece que, invariavelmente, estamos tropeçando na mesma pedra. Repetimos equívocos, caímos em armadilhas semelhantes, percorremos caminhos que, de alguma forma, já sabemos onde vão dar.
Mas por quê?
Às vezes, algo dentro de nós sussurra que estamos na direção errada.
Uma intuição, um desconforto, uma pequena voz que nos alerta de que aquilo não parece promissor, de que talvez não termine bem. Percebemos os sinais, captamos os avisos, mas, ainda assim, seguimos adiante. Como se uma parte de nós preferisse arriscar, mesmo quando outra já sabe o desfecho.
Há quem diga, quando o assunto são relacionamentos, que tem o dedo podre.
Mas será que essa tendência se restringe ao amor? Talvez não. Ela também aparece nos acessos que escolhemos, nos atalhos que tomamos, nas oportunidades que abraçamos e nas decisões que, apesar de todos os indícios, insistimos em tomar.
É como se, por vezes, tivéssemos uma estranha habilidade para reconhecer o perigo e, mesmo assim, caminhar em sua direção.
Quando aprenderemos a nos escutar? A fazer uso de uma espécie de direção defensiva diante da vida? Não para nos tornarmos céticos, desconfiados de tudo, fechados às possibilidades ou incapazes de correr riscos. Afinal, viver também exige ousadia. Mas talvez seja possível conciliar coragem com prudência, entusiasmo com discernimento e espontaneidade com um pouco mais de cautela.
Vamos aprendendo, quase sempre a duras penas. A cada queda, acrescentamos uma proteção; a cada decepção, desenvolvemos um pouco mais de discernimento. Aos poucos, descobrimos que nem toda porta precisa ser aberta, nem todo convite merece ser aceito e nem todo caminho, por mais atraente que pareça, merece ser percorrido.
Talvez nossos tropeços também tenham sua função. É possível que, sem eles, não fôssemos provocados a rever escolhas, abandonar velhos padrões e amadurecer. Talvez algumas quedas sejam justamente o que nos obriga a sair do lugar e nos faz buscar versões melhores de nós mesmos.
A vida é uma estrada. Há trechos planos, paisagens deslumbrantes, curvas inesperadas e caminhos que parecem promissores, mas escondem buracos profundos. Há também rotatórias confusas, desvios, becos sem saída e encruzilhadas diante das quais precisamos decidir.
Não temos como evitar todos os obstáculos, tampouco prever cada curva. Mas podemos aprender a prestar mais atenção às placas, respeitar os sinais de alerta e, sobretudo, não ignorar aquela voz interior que tantas vezes tenta nos proteger.
Porque amadurecer talvez seja justamente isso: não deixar de viajar, mas aprender a escolher melhor os caminhos. E, principalmente, entender que nem toda estrada que nos atrai é uma estrada que nos leva aonde realmente queremos chegar.
Amadurecer não é deixar de correr riscos, mas aprender a distinguir aqueles que nos fazem crescer daqueles que apenas nos fazem repetir velhas quedas.
As pedras em que insistimos em tropeçar
Ir ou ficar? Cuidar ou negligenciar?
Ouvir ou desconsiderar? Instinto ou razão?
Ou será preciso um pouco de cada?
Afinal, não há uma linha reta.
As curvas, às vezes, nos ajudam;
outras, nos confundem e perturbam.
Mas é preciso persistir. É preciso ouvir a nós mesmos,
ouvir o outro, observar o mundo e compreender o alcance
de nossas ações sobre o todo.
Caindo e nos levantando, sacudindo a poeira e seguindo,
levando marcas, dores e aprendizados, mas sem permitir
que as quedas nos definam.
Porque viver também é isso: errar, rever, aprender, recomeçar.
Machucados, por vezes sofridos, mas nunca definitivamente derrotados.
Cida Guimarães
19/10/26


