
Nascidos antes do seu tempo… ou condenados a não ser compreendidos?
Dostoiévski, disse: “As pessoas têm coisas lindas a dizer sobre você, mas você precisa morrer primeiro.”
Por que esperamos perder alguém para reconhecer aquilo que poderíamos ter valorizado em vida?
Friedrich Nietzsche escreveu: “Alguns nascem póstumos.” A expressão aparece em Ecce Homo, no capítulo em que reflete sobre seus próprios livros e sobre a dificuldade de ser compreendido por seus contemporâneos. Havia nessa afirmação uma ironia profunda, mas também uma espécie de constatação dolorosa: suas ideias estavam tão distantes do pensamento de sua época que talvez somente as gerações futuras fossem capazes de compreendê-las e reconhecer seu valor.
Que tristeza, não? E quantos não passaram por isso? Sócrates, Cristo, Van Gogh, Kafka… Para citar apenas alguns, em diferentes épocas e áreas. Pessoas cujas ideias, obras ou atitudes foram rejeitadas, incompreendidas ou condenadas por aqueles que viveram ao seu redor. O reconhecimento, muitas vezes, chegou tarde demais.
Mas será que aprendemos alguma coisa? Às vezes, tenho a impressão de que não. Olho para trás e vejo que, desde menina, passando pela adolescência, pela vida adulta e chegando à velhice, continuo testemunhando comportamentos muito semelhantes: o mesmo radicalismo, a mesma intolerância, a dificuldade de aceitar visões divergentes, de ouvir, ponderar e, sobretudo, tentar compreender.
Rotulamos pessoas, desqualificamos ideias, condenamos movimentos. Poucas vezes nos dispomos a olhar além das nossas convicções, a procurar entender o que existe por trás de uma opinião diferente e até mesmo a reconhecer que pode haver algo a aprender, aproveitar ou incorporar naquilo que o outro pensa.
Nossa história política também me traz lembranças dolorosas. Getúlio Vargas, figura que minha mãe admirava, chegou ao suicídio em meio a uma crise política devastadora. Vi João Goulart e Leonel Brizola serem afastados do país e viverem no exílio. Vi Juscelino Kubitschek ter seus direitos políticos cassados pela ditadura, e tantas outras arbitrariedades.
Não ignoro as contradições, os erros e as controvérsias de suas trajetórias. Ninguém e tampouco nenhuma figura pública está acima de críticas. Somos todos humanos e sujeitos a erros e acertos.
Mas sempre me incomodou a intolerância que transforma divergências em inimizades e adversários em inimigos a serem eliminados.
Quantas vezes, por minhas posições e convicções, fui rotulada de comunista! Nunca defendi a supressão da liberdade, tampouco a perda dos nossos direitos como cidadãos. Sempre defendi, sim, nossa democracia , mas com um olhar atento aos mais necessitados, a redução das desigualdades e a construção de uma sociedade mais justa, solidária e igualitária. Será pedir demais?
O que me entristece é perceber que, apesar de tantas décadas, de tantos avanços científicos, tecnológicos e de acesso à informação, continuamos tropeçando nas mesmas pedras: intolerância, preconceito, radicalismo e incapacidade de conviver com o contraditório.
Estamos nos tornando mais individualistas? Mais egoístas? Estaremos confundindo liberdade com ausência de responsabilidade, sucesso com acumulação e desenvolvimento com crescimento econômico a qualquer preço?
Que lugar estamos reservando à solidariedade, à empatia, à justiça social e ao respeito pelo outro?
Não quero acreditar que estejamos condenados a repetir os mesmos erros. Não quero aceitar que reconhecer o valor de alguém, de uma ideia ou de uma contribuição seja sempre um exercício tardio, muitas vezes reservado à posteridade.
Talvez esteja na hora de aprendermos a ouvir antes de julgar, compreender antes de condenar e reconhecer antes de perder.
Porque uma sociedade que só reconhece seus talentos depois que eles partem, que só valoriza suas conquistas quando já não pode compartilhá-las e que transforma diferenças em campos de batalha tem muito a repensar.
E eu, que já atravessei tantas décadas, confesso: ainda me surpreendo, ainda me indigno e ainda me entristeço. Socorro! Será que estamos evoluindo mesmo ou apenas mudando as ferramentas com as quais repetimos os velhos erros?
Espero, sinceramente, que não precisemos dar adeus a Lula para reconhecer o que viveu, enfrentou, sofreu e realizou pelo nosso país.
Não se trata de ignorar erros, divergências ou críticas, que fazem parte de qualquer trajetória política ou não. Trata-se de reconhecer também o que foi feito: a retirada de milhões de brasileiros da pobreza extrema, a ampliação de oportunidades, a conquista de mais dignidade para os mais vulneráveis, o incentivo à cultura, à educação e à inclusão de grupos historicamente marginalizados.
E não apenas dentro de nossas fronteiras. No cenário internacional, Lula conquistou reconhecimento e projeção, recolocando o Brasil no diálogo entre as grandes nações e fazendo com que nosso país fosse visto com respeito e relevância.
Um estadista não precisa ser unanimidade. Aliás, dificilmente será. Não existe unanimidade e quando há, é burra. Mas merece ser avaliado pelo conjunto de sua trajetória, por suas realizações e também por suas contradições.
Que saibamos reconhecer em vida, debater sem desqualificar e discordar sem desumanizar. Que o reconhecimento não precise esperar pela ausência.
Cida Guimarães
22/10/26

