
Viajar começa muito antes do destino. Começa no embarque apressado, nas salas VIP lotadas — onde, ironicamente, “somos todos VIP” — e na expectativa silenciosa de que algo nos transforme. Na realidade, hoje, quase todos são VIP e há que aguardar em filas para fazer uso de salas, antes exclusivas.
Saí de Porto Alegre rumo a São Paulo e, de lá, para Joanesburgo. Foram cerca de 9h30 de voo: tranquilo, apesar do avião cheio, poltronas cada vez mais apertadas e que quase não reclinam, e da comida pouco memorável. Pedi especial, sem lactose; Na volta, retirei a restrição pois foi horrível. Positivo o fato que no Brasil gozamos da prioridade por Lei, de idade. Então, entro primeiro, independente de meu grupo. Pego sempre, poltrona de corredor, então , me sinto livre para levantar e me alongar.
Ao chegar, o frio de 11 graus me recebeu — mas nada que se comparasse ao calor humano que viria depois. Aliás a mesma amplitude térmica daqui. Amanhecia e anoitecia frio, mas durante o dia ficava bem agradável e em alguns dias até quentinho.
Primeiras Impressões: Joanesburgo
Logo no primeiro dia, percebi: a África do Sul encanta. Natureza exuberante, um povo alegre, delicado, genuinamente hospitaleiro. Joanesburgo ou Johannesburg é uma cidade grande, a maior da África do Sul e uma das mais vibrantes. É o coração econômico e cultural do país. Fiquei somente 1 dia por recomendação da agência, então pouco pude conhecer. Na realidade, desaconselham ficar mais tempo e não fui ao bairro Maboneng porquê disseram que seria perigoso ir sozinha. Fiquei hospedada no hotel Southern Sun Sandton, em Sandton, bairro e hotel, maravilhosos. Cheguei ao redor das14:00. Larguei minhas coisas no quarto, e resolvi sair para conhecer a cidade.

Peguei um Uber e segui para o Museu do Apartheid. Amei o museu que é interativo, contando não só a história, como pensamentos e mensagens de Mandela.


Um mergulho necessário na história. Forte, denso, impossível sair indiferente. Ele demonstra como a segregação racial moldou e feriu profundamente a África do Sul. Já na entrada seu ingresso pode indicar “white” ou “não white” e você entra por portas separadas- uma recriação simbólica das leis que dividiram o país. Leis do apartheid: documentos, fotos e vídeos mostram como o sistema controlava onde as pessoas podiam viver, trabalhar e até amar. Relatos de protestos, prisões e massacres.
Na volta, utilizei o Bolt, aplicativo africano, semelhante ao Uber, mas local, e bem mais barato que o Uber. Explico: meu aplicativo do Uber, do nada, parou de funcionar e não consegui reativar pois mandava mensagem para um chip que eu havia desativado. Precisava voltar ao hotel; no café do museu, pedi para as atendentes chamarem um táxi. Disseram que não havia e me aconselharam a instalar o Bolt, que funcionou super bem.
À noite, recolhimento. Era só o começo. Resolvi jantar no hotel, uma sopa de tomate ótima!
O Imprevisível Faz Parte
Viajar também é lidar com o inesperado. Um atraso de três horas no voo para Hoedspruit — pela Airlink: piloto doente, nenhuma informação clara, nenhuma alternativa. Um certo desconforto… mas também a lembrança de que estamos fora do controle. E talvez aí comece a verdadeira viagem. Acabou, dando tudo certo.
Chegamos ao Kruger National Park, que inclui 7 grandes reservas privadas, integradas. O parque tem 10 mil hectares; dentro, existem muitas subdivisões e reservas menores. No total, dá algo como dezenas de reservas privadas e cerca de 15 a 20 áreas mais conhecidas.
Meu “transfer” ocorreu como se eu tivesse chegado no horário, sem atraso. Lá estava o guia me esperando com a placa no meu nome. Os africanos têm nomes de substantivos, o que me pareceu muito interessante , difíceis de esquecer: Justice, Option, Blessing, Forgive, Precious.
O Precious me buscou.
Chegar ao lodge foi como entrar em outro ritmo de mundo. Fiquei na reserva Moditlo Nature Reserve e fiquei hospedada no Little Africa Safari Lodge. Tenda 3. Há 8 tendas, sendo uma para casais em lua de mel, com piscina individual já que o lodge conta com uma coletiva. Além de ser bonito e aconchegante este lodge tem a vantagem de ser intimista pois as tendas estão longe umas das outras, em um lindo local com arbustos, árvores e agradáveis espaços de lazer. Minha tenda era linda e aconchegante e apesar de estarmos em uma reserva na selva, me senti segura e aconchegada.





Fui recebida com simplicidade e acolhimento. Minha “tenda” — na verdade, um refúgio sofisticado no meio da natureza — me conectava diretamente ao entorno. Logo na chegada, um macaco me observava, como se dissesse: “você agora está no nosso território”.
À noite, ao redor do fogo, drinks, histórias e encontros improváveis: australianos, singapurianos, ingleses… e eu, ali, parte daquele pequeno universo.

Os australianos de Perth , muito simpáticos me convidaram para sentar a mesa com eles. Batemos longo papo.


E então, o safari. Não é apenas observar animais — é participar de um jogo silencioso com a natureza. Por isto são chamados de “game drive”. É um jogo já que avistar os animais vai depender de sorte ou azar. Seguir rastros. Esperar. Respeitar o tempo. São três horas de game, seguindo trilhas, pesquisando rastros, os trackers examinando excrementos e definindo a que animal pertencem. Há uma parada na selva. Pela manhã, para café com biscoitos, e à tarde com um drink (vinho/ refrigerante ou café) e salgadinhos, observando, respectivamente, nascer e pôr do sol. Lindos!

Leões com filhotes, girafas elegantes, búfalos imponentes, impalas em abundância…
E o mais marcante: a sensação de estar viva, presente, atenta. Tive muita sorte pois no primeiro game, uma leoa com seus filhotes veio e parou ao lado do veículo, nos encarando, literalmente.




Vimos impalas, rinoceronte, um búfalo, zebra e uma girafa. Aliás consegui avistar 4 dos 5 grandes: búfalo, rinoceronte, elefante e leão. Não consegui avistar um leopardo, mas vi chitas, zebras, macacos, galinhas de angola.
No segundo game drive, menos animais — mas um pôr do sol indescritível. E, às vezes, é isso que a viagem nos ensina: nem sempre é sobre quantidade, mas sobre o que nos atravessa.
Cada game drive é de 3 horas e não há banheiro… se houver urgência, é no mato. São disponibilizadas capas de gabardine por fora e lã por dentro, super quentinhas.
É a que uso na foto. Nos avisam para não ficar de pé, falar baixo e não rir alto. Os animais nos respeitam se respeitarmos o espaço deles. Agem melhor que os humanos.
Um Encontro Gigante
Troquei um “dos game drives” por algo diferente: um santuário de elefantes. O passeio para o HERD Trust. Hoedspruit Rehabilitation and Development Center, opcional, em outra reserva, acredito que fica dentro da reserva Campana, foi de R600 . Há vários outros passeios opcionais e por isto é interessante ter mais dias.

Alimentá-los, tocá-los, olhar nos seus olhos… há uma sabedoria silenciosa nesses encontros. Algo que não se explica — apenas se sente.

Este elefante é o SOMAPANI. Dei de comer, toquei, incrível.
Vinhos, Chuvas e Contrastes
De volta, Cape Town me recebeu com chuva intensa, falta de luz, pequenos desconfortos… e uma casa enorme demais para uma pessoa só. Fiquei no Le Franschhoek Hotel e Spa, cerca de 40 minutos de Cape Town, em Franschhoek que é uma região de vinhedos, olivas, alfazemas. Lugar lindo- o tempo não contribuiu pois não havia como caminhar pela região. O temporal dos dias anteriores havia deixado árvores tombadas, muitos pequenos alagamentos. Fui muito sortuda pois cheguei quando a chuva estava fraca.
Maravilhoso o hotel e spa, mas nem sempre o luxo acolhe. Me colocaram em uma casa enorme e luxuosa. Acomodaria tranquilamente mais 4 pessoas. Disseram que o complexo principal estava lotado. Devido a tempestade, faltou luz, água, internet, e a sensação de ficar desconectada do mundo. Fui até o prédio principal e, então arrumaram um quarto interno para me acomodar, apesar de minha estada ser somente de um pernoite. Conseguiram uma lanterna à vela e me sentindo mais aconchegada, descansei até o horário do breakfast (7:00). Maravilhoso o café da manhã. Muitas opções e ainda com pratos eletivos. O hotel tinha gerador, mas este só começou a funcionar pela manhã. Após o desjejum, me levaram até a casa (um carrinho tipo de golf) e arrumei minha bagagem para aguardar meu guia, que veio me buscar às 9:00.
Contratempos que fazem parte, a agência, ao saber do ocorrido, que não havia sido culpa de ninguém.. só um “Act of God” me enviou um champagne, com salgadinhos. Aliás, tanto a agência brasileira Kangaroo como a Africa By Design foram maravilhosas: roteiro, hotéis, guias, passeios e refeições inclusos, ótimos. Traslados eficientes, com ajuste de horário, mesmo nos atrasos de voos etc.
O dia seguinte trouxe equilíbrio: Franschhoek e Stellenbosch — vinhedos, arquitetura charmosa, herança francesa e holandesa, degustações que despertam sentidos.
Ali, tudo parecia mais leve. Visitamos primeiro Rupert & Rothschild, mas a surpresa e deleite veio na propriedade Vergenoegd Low the Wine State, degustação acompanhada das especiarias africanas.

Um prato redondo com plantas comestíveis no centro e rodeado por 7 especiarias africanas acompanhadas pelo vinho específico, até Porto foi servido com a sobremesa. O atendente ia explicando cada especiaria e o vinho que melhor combinava com o petisco. Seguido por uma entrada deliciosa, prato principal e sobremesa. Almoço dos deuses, incluso no pacote.
Depois passeamos por Stellenbosch, um atraente cidadezinha com galerias, lojas e restaurantes.


Fomos para Cape Town e fiz o check-in no Radisson Red Hotel V&A Waterfront.


Ótimo hotel. Excelente localização na entrada da escadaria que leva ao waterfront, lojas, mall, etc. Saí depois para explorar a área e jantei um sanduiche pois depois do lauto almoço não estava com fome alguma.
Cape Town é uma cidade de encontro, de oceanos, de culturas, de histórias, É um daqueles lugares que não cabem só em fotos bonitas: ela mistura natureza grandiosa com uma história profunda, às vezes dura, mas sempre pulsante. O cartão postal mais famoso é a Table Mountain- uma montanha de topo plano, como uma mesa, que domina a cidade como um palco natural.
Entre Nuvens e Cores

A tão esperada subida até a Table Mountain. Ainda estava um pouco nublado e tivemos que esperar pois abriram mais tarde. Você pode subir de teleférico( nosso caso) ou fazer a trilha para quem gosta de um desafio adicional.
Tinhamos um fast track o que facilitou a subida pelo teleférico. Na realidade, a agência providenciou formas de evitar o desgaste. Subimos a Table Mountain. A vista, encoberta por nuvens, não deslumbrou como esperado. Afinal, esta não foi a primeira montanha, nem o primeiro teleférico meus, e a comparação com o já vivido é inevitável; acredito, a expectativa matou a realidade. A visão do Lion´s Head, outra montanha que parece a cabeça de um leão foi a visão mais impactante. Caminhei toda a extensão da montanha de onde temos visões distintas da cidade e da baía abaixo.
Mas talvez a beleza não estivesse lá em cima.

O city tour me levou ao mercado de pulgas, à catedral e ao bairro de Bo-Kaap, com suas casas coloridas e vibrantes, o que trouxe exatamente isso: vida, cultura, identidade. Este bairro tem raízes profundas de descendentes de escravizados e muçulmanos, Um dos bairros mais antigos, fundado pelos holandeses.


CAPE TOWN


Esta “Swipe bridge” é super interessante pois se desloca para dar passagem aos barcos. Toda esta área do Waterfront é uma festa. Repleta de lojas de artesanato, mercado, restaurantes, barcos, galerias, mall; é o ponto turístico por excelência. Sempre ha grupos tocando, cantando, dançando. Muita cor, vibração, vida!



O Mama Africa é um restaurante com comida típica, maravilhoso. À noite tem show com música africana. Amei a vibe.
O Jardim Botânico foi um dos locais que mais amei pois integra a natureza exuberante, com a Table Mountain e o Lion`s Head, ao fundo, e com as esculturas como parte deste todo de beleza, numa interação linda; é como um Museu a céu aberto, me lembrou Inhotim, em Minas Gerais.


Estradas que Encantam
Chapman’s Peak Drive — uma estrada sinuosa entre montanhas e oceano. Lindos os bairros de: Camps Bay, Clifton beaches, e terminando em Boulder Beach onde vivem os pinguins-africanos. Sim, pinguins na África, e isto já diz muito como este lugar surpreende. Destas praias, temos como cenário de fundo a vista da Table Mountain, dos 12 apóstolos e do Lion’s head.

O Cabo da Boa Esperança — imponente, quase selvagem. Ponto alto da viagem, tanto literal como preferencialmente. Dali fomos até Cape Point onde há um teleférico que leva até um ponto mais alto de onde é possível subir ate o farol. São 100 degraus, mas a vista compensa. É fascinante!



E, por fim, os pinguins em Simon’s Town — delicados, curiosos, encantadores.

Um dia completo, daqueles que ficam na memória sem esforço.
Memória e Reflexão
A visita a Robben Island foi um dos momentos mais marcantes.
Ouvir a história, caminhar pelos espaços, entrar na cela onde Nelson Mandela esteve preso…e, mais ainda, ser guiada por alguém que viveu aquilo, um ex-preso político. A viagem de barco até a ilha leva de 35 a40 minutos (7 kms da costa) com uma vista linda da Table Mountain. Ao chegarmos nos dirigem a um ônibus, com uma guia que percorre toda a ilha nos contando sobre o local, como áreas de trabalho forçado (pedreira de calcário).
Mandela ficou 18 dos seus 27 anos de prisão nesta cela, que só tinha um colchão fininho no chão.

Não é apenas história — é memória viva.
Entre Compras e Despedidas
Os últimos dias foram mais leves: caminhar sem pressa, escolher lembranças, saborear ostras com vinho, organizar a mala com o cuidado de quem quer levar um pouco da viagem consigo — torcendo para que tudo chegue inteiro. E então, a volta.
O que fica: A África do Sul não é um destino só de paisagens — é de contrastes. Entre o luxo e o simples. Entre o belo e o duro. Entre o passado pesado e a leveza de um povo que acolhe. Volto com imagens, sabores, encontros…
Mas, principalmente, com a sensação de que viajar é isso: Desestabilizar para reconstruir. Tirar do lugar para fazer sentir. E , talvez, no meio de tudo isso, nos aproximar um pouco mais de quem somos — ou de quem ainda podemos ser.
Dicas:
Ficar pelo menos 2 noites em Joanesburgo para poder visitar a cidade; 3 noites ideal para a reserva e no mínimo 4 noites em Cape Town. Cape |Town tive tempo para ver bastante pois fiquei 5 dias, mas ficou a vontade de mais…
Um bom almoço ou jantar na região gira em torno de Rands 600 a 650, incluindo uma taça de vinho. Comida maravilhosa e variada. Ótimo tempero. Para um lanche, o custo é de aproximadamente R150 a R200 (cerca de R45 a R60). As gorjetas são opcionais, mas é comum que os restaurantes tragam a conta para que você possa decidir quanto deseja deixar. O percentual sugerido é geralmente de 15% a 20%.



Nos safaris, as gorjetas recomendadas são de R120 por dia para o ranger e R80 para o driver, enquanto os guias costumam receber cerca de R100 por dia. No total, acabei gastando ao redor de R800 em gorjetas. Para referência, US100,00 equivale a R1.400,00, já descontadas as taxas.
Em suma, enquanto você desfruta das delícias gastronômicas e das experiências únicas, lembre-se de que a generosidade nas gorjetas é uma forma de agradecer a quem torna sua viagem ainda mais especial. Depois de tudo, cada refeição e cada passeio se tornam memórias inesquecíveis que valem cada centavo!
Vale muito a pena a visita a este pais rico em história, cultura, arte: pintura, escultura, artesanato e de alma sensível. Há grupos tocando, cantando nas ruas e a vibração é de alegria com o colorido de suas casas, morros e mar. Dá vontade de voltar!
Mais fotos:






Cida Guimarães
26/05/26



Mãe, ler foi como viajar contigo. Cada detalhe e a forma como você descreveu tudo e com a sua coragem de viver experiências tão especiais me orgulho de quão incrível que você é. Continua escrevendo e explorando o mundo, porque é lindo acompanhar suas descobertas. Te amo ❤️
Muito obrigada minha querida.Te amo mais!
Cida, que extraordinário essa viagem! Amei poder conhecer um pouquinho do que você experenciou nesse destino.
Linda sua foto com o elefante, fiquei muito entretida com sua escrita. Beijos.
Obrigada querida!