
Com estranheza e um pequeno desconforto, peguei-me a pensar: enxergaríamos a beleza se a feiura não existisse? Pode a beleza existir lado a lado com a feiura?
A leveza da gaivota alçando voo, recortando o céu com graça, quase como se desenhasse o vento — e, ao mesmo tempo, os urubus, circulando mais alto, atentos, pacientes, os lixeiros do mundo.
Andam lado a lado. Um iluminando o outro.
A gaivota, símbolo da leveza, da descontração, da luz que dança sobre o mar; o urubu, associado ao que rejeitamos — o resto, o fim, o que evitamos nomear. Mas será possível ter um sem o outro?
Compará-los é colocar frente a frente duas aves que compartilham o mesmo céu, embora habitem sentidos tão distintos dentro de nós. As gaivotas evocam o litoral, o sal, a liberdade dos dias abertos. São ágeis, ruidosas, vivas — quase uma metáfora do encanto imediato; os urubus, por sua vez, carregam uma presença mais densa. Silenciosos, descrevem círculos largos no ar, como se soubessem de algo que evitamos encarar. Alimentam-se do que já não vive — e, ainda assim, é justamente nisso que reside sua função: limpar, transformar, devolver ao ciclo aquilo que parecia apenas fim.
Ambos planam com a mesma maestria. Ambos se adaptam, persistem, existem com igual direito sob o mesmo céu. Talvez a diferença não esteja neles, mas no olhar que lançamos.
A gaivota nos parece poesia. O urubu, realidade crua.
Mas há uma ironia quase silenciosa nisso tudo: enquanto nos encantamos com a beleza leve das gaivotas, são os urubus que sustentam um equilíbrio invisível, fazendo o trabalho que ninguém quer ver — nem fazer.
E então a pergunta retorna, mais serena: será mesmo a feiura apenas feiura — ou apenas uma forma de beleza que ainda não aprendemos a contemplar?
Talvez viver seja isso: aprender a ampliar o olhar. Perceber que há graça no que brilha — mas também uma espécie de dignidade no que transforma, no que encerra, no que limpa o excesso para que algo novo possa surgir.
No fim, entre o branco leve que nos encanta e o escuro necessário que nos sustenta, não há oposição absoluta — há continuidade.
E quem sabe, quando o olhar amadurece, até o voo do urubu, recortando o céu em silêncio, comece a nos parecer, também ele, estranhamente belo.
Entre a beleza e a feiura
O feio pode ser belo — e o belo, por vezes, também se desfaz.
Onde reside, afinal, a beleza? Na aparência?
Ou no que nela projetamos? Quem ama o feio, belo lhe parece —
mas será o amor que transforma, ou o olhar que se alarga?
Tão difícil definir onde está o belo…
No ser? No agir? Na imagem?
Ou na energia que se cria e se espalha?
Cada um vê, sente, percebe à sua maneira —
como quem toca o mundo com filtros invisíveis.
E talvez seja belo aquilo que nos aquieta,
o que nos atravessa com suavidade, o que nos encanta —
mesmo carregando imperfeições.
Porque, no fundo, há uma beleza que não pede forma perfeita,
apenas presença. E é nela, discreta e silenciosa, que o olhar —
quando amadurece —finalmente aprende a repousar.
Cida Guimarães
07/06/2026


