
PAQUERAS
“Um Amor que Ficou no Sonho“
As paqueras da década de 60, “crushes” de hoje não tinham pressa.
Eram feitas de silêncios, de olhares demorados, de um secar discreto que dizia tudo sem dizer nada. Nada era urgente. Tudo era sentido. Antes da palavra, vinha o encanto.
Naquele tempo, amávamos mais o amor do que a pessoa. Idealizávamos. Sonhávamos.
E talvez por isso tudo fosse tão intenso e tão leve ao mesmo tempo. A paquera era sugestão, nunca afirmação. Bilhetinhos dobrados com cuidado, encontros na praça ao entardecer, no cinema escuro, nos bailes onde os corpos se aproximavam, mas a alma chegava primeiro. Muita expectativa!
Há uma dessas paqueras que o tempo não apagou. Um dos meus primeiros amores — ou talvez o primeiro amor pelo amor de almas, de conexão intelectual e espiritual.
Meu irmão mais velho, Laerthe, morava na época em Encantado, uma cidade pequena, quase desenhada à mão: uma rua principal, a igreja, a praça e o clube onde todos se encontravam. Nas férias de julho, eu ia para lá com meu irmão, mais novo dos três— mas 7 anos mais velho do que eu. Ele ia, como meu acompanhante, fiscal-controlador.
Aqueles dias tinham gosto de liberdade, de descoberta, de festa.

Foi em um desses bailes — como se dizia então — que, aos 14 anos, conheci quem meus olhos reconheceram como um príncipe encantado -Paulo Fernando. Bastou um olhar para que algo se instalasse. Após muitos olhares, ele me tirou para dançar. E dançamos como se o mundo coubesse naquele salão. Havia charme em seus gestos, leveza em seu jeito de dançar. Conversávamos longamente, como se o tempo tivesse se esquecido de nós. Eu falava dos meus sonhos, de querer ser advogada – incrível, ele também, da escola, da vida, que ainda não era. Ele ouvia, opinava, e havia uma linda comunhão de ideias. E isso já era tudo.
Na cidade pequena, logo conheci sua irmã, figura conhecida na cidade não só por ter ganho um concurso de miss mas por ser de uma família conhecida e respeitada. Tornamo-nos amigas. Num próximo final de semana, viajamos todos juntos, de ônibus fretado, até uma cidade vizinha para assistir um show- rimos, nos divertimos. Tudo parecia ampliar o encanto.
Naquele tempo, a paquera era quase sagrada. Não havia toque imediato. Até segurar a mão exigia espera. E a espera fazia crescer a expectativa. Memórias vivas de então!
Quando voltei para Porto Alegre ao final das férias, pensei que tudo ficaria apenas na lembrança. Mas houve ainda um gesto final — desses que só o romantismo permite: uma serenata. Linda e inesquecível. A única de minha vida, mas me sinto afortunada pois quem já viveu isto? Acordei com vozes cantando sob minha janela. Desci. Minha mãe, cúmplice do momento, deixou Paulo e o grupo, amigos de Encantado, entrar, serviu refrigerantes, e o instante se estendeu como um sonho acordado.
Depois, a vida seguiu. Meu irmão foi transferido. Perdemos o contato. Não houve continuidade, nem promessas. Não houve o depois.
Ficou apenas aquilo que não se gastou com o tempo: a lembrança de um amor sonhado, não vivido, intacto. Um amor que não precisou enfrentar a realidade para existir.
E talvez por isso ainda habite a memória com tanta nitidez — como certas músicas, certos olhares, certos verões: não porque aconteceram plenamente, mas porque permaneceram eternamente possíveis.
Cida Guimarães
17/01/26


