
Perder algo muito querido — um objeto, uma peça, um fragmento de memória — sempre me desestabiliza.
Já me roubaram coisas que eu guardava com cuidado, não pelo que eram, mas pelo que significavam.
Peças pequenas de um quebra-cabeça afetivo.
Lembranças que cabiam na palma da mão, mas ocupavam um espaço imenso no coração.
E, curiosamente, a vida parece repetir a lição: desapegar.
Como se dissesse, em silêncio: “isso também vai passar”.
São sempre coisas ligadas a alguém, a uma data, a um instante que deixou marca.
Mas, se já perdi pessoas tão amadas, por que sofrer por objetos?
Tudo é finito. Nada nos pertence.
O que levamos, no fim, não cabe em malas.
Então por que essa dor, se são só lembranças —
de quem já partiu, de momentos que não voltam,
de mundos que já não existem?
A razão… ah, ela sabe de tudo.
Mas age como se não soubesse de nada.
Mesmo sabendo que são apenas coisas,
que “vão-se os anéis e ficam os dedos”,
sinto, a cada perda, como se perdesse de novo.
Como se aquele objeto levasse junto a presença que representava.
Como se eu estivesse, uma vez mais, me despedindo.
Cida Guimarães
31/07/25


