— UMA PIADA DE MAU GOSTO (QUE EU NÃO COMPRO)

Fico sempre surpresa com o medo quase pânico que muita gente tem de envelhecer. Há quem, ao se aproximar dos 60, já se declare “velho”. Ora, vamos combinar: sessenta é o novo ….depende do dia, mas está longe do fim!
Agora dizem que a “melhor idade” começa aos 65. “Melhor”? O símbolo oficial é um bonequinho encurvado com uma bengala. Sério? Se essa é a melhor idade, imagina a pior!
Lembro que, há muitas décadas, eu achava que quem tinha 50 já era velho. Relativo, não é? Pois cá estou, quase aos 80, me sentindo mais viva, curiosa e dona de mim do que em muitas outras fases da vida. Idade, afinal, é só um número — desses que o cartório insiste em registrar, mas que pouco dizem sobre quem somos.
Temos muitas idades dentro da gente: a cronológica (essa, coitada, não dá pra esconder), a emocional (essa costuma ser adolescente!), a intelectual, a física, e por aí vai. Às vezes, todas dançam fora de compasso — e é justamente aí que mora a graça da vida.
Mas o preconceito insiste em fazer barulho.
A palavra “velho” ainda soa como ofensa: “Olha aquele velho!”
Pois eu digo: gente que não envelhece é porque morre. E há tanta beleza em envelhecer! Nas rugas que contam histórias, nos silêncios que dispensam explicações, na liberdade de fazer só o que dá vontade — sem pedir licença a ninguém.
Hoje me sinto mais segura, mais independente e, sobretudo, mais fiel a mim mesma. Ganhei o direito de acordar tarde, mudar de ideia, rir alto, usar o que quero e não dar satisfação a ninguém — a não ser, talvez, ao espelho (e olhe lá!).
E os relacionamentos? Ah, aí o etarismo se revela em todo o seu teatro. Quando uma mulher se envolve com um homem mais jovem, é “um absurdo”. Já o contrário, claro, é “prova de virilidade”. E o mais curioso é que faz até sentido biológico: o homem amadurece mais tarde… e envelhece mais cedo!
E o clássico: cabelo grisalho neles é charme; nelas, “desleixo”. Rugas neles são marcas de caráter; nelas, sinal de descuido. Parece até que o tempo anda de terno e gravata, sempre a favor do mesmo lado.
Mas quer saber? O tempo pode até passar — quem manda sou eu.
E se o etarismo insiste em me chamar de velha, eu sorrio e respondo:
“Velha, sim. Mas, sobretudo, viva — e com estoque de boas risadas.”
Maria Aparecida Guimarães é cronista e observadora curiosa da vida. Acredita que envelhecer é uma arte — e que o humor é o melhor creme antirrugas que existe.
Velha eu?
Abaixo, uma cartinha para a Alma:
Querida alma em seu tempo maduro,
Chegaste a uma estação onde a pressa já não manda, e o coração, com voz mais tranquila, passa a ditar o compasso. É agora que as relações tomam a primazia — não as grandes
multidões, mas os encontros íntimos, onde o olhar reconhece e o silêncio conforta.
Nesta fase, o mundo já não exige que proves nada. O que importa é o que floresceu dentro: a delicadeza das escutas, o amor que deste, as memórias partilhadas em mesas simples,
e a alegria discreta de estar junto. Teu papel, agora, é o de quem costura: costuras histórias, afetos, acertos tardios. És aquela presença que acalma, que reconcilia, que aproxima mãos antes distantes.
Há sabedoria nisso — não a dos livros, mas a dos dias vividos sem pressa. Talvez surjam momentos de incerteza, quando o corpo pede mais repouso e a alma mais silêncio. Deixa que isso venha. Entrega-te ao cuidado que um dia ofereceste: aceitar ajuda também é amar. Não tenhas medo de se recolher, mas não te escondas do mundo. Caminha aos poucos, senta ao sol, conversa com quem te deseja bem, celebra o pequeno.
A vida, nessa altura, é feita de miniaturas preciosas —um chá quentinho, um abraço demorado, uma história repetida que ainda faz rir.
Guarda um espaço para os teus legados: receitas de família, cartas que escrevas, palavras que deixes para aqueles que ainda aprenderão contigo. Teu gesto, mesmo simples, ecoa.
E quando te deitares ao fim de um dia tranquilo, que sintas que viveste com ternura.
A última fase não precisa ser despedida; pode ser encontro — contigo, com os outros, com o mistério. Segue leve. Ainda há beleza a descobrir na quietude que te abraça.
Com carinho e reverência,
O TEMPO
A IDADE DA ALMA
Minha alma paira leve
quando minha alma dança,
e meus pés seguem seu ritmo.
Sou puro sonho,
menina faceira.
Como contar a idade da alma?
É sempre nova —
a não ser que não sonhe mais,
a não ser que já tenha deixado
o corpo que agora se arrasta na vida.
Cida Guimarães
13/11/25


