
Ressentir é voltar ao mesmo lugar
onde a dor aprendeu nosso nome.
Mágoas antigas batem à porta,
querem casa, silêncio, permanência.
Como varrer o que se entranhou?
Como lavar o que o tempo apenas secou, mas não levou?
Talvez seja preciso ficar.
Sentir sem pressa, sem defesa,
deixar que a dor diga tudo o que precisa dizer até cansar.
Então, num gesto pequeno e corajoso,
abrir as janelas da alma.
O ar entra, a poeira se move,
e algo que antes pesava começa a soltar.
Não é fácil.
Quase nunca é rápido.
Mas é necessário. Porque o ressentimento, quando se instala,
adoece em silêncio.
E deixar ir — ainda que em fragmentos —
é escolher respirar outra vez.

Sim, é preciso lavar a lama e deixar escorrer a dor.
O ressentimento adoece a alma. Ele se infiltra devagar, feito umidade nas paredes internas, até comprometer aquilo que parecia sólido. É uma emoção complexa, feita de mágoa, rancor e insatisfação por experiências mal elaboradas do passado.
A própria palavra ressentimento carrega a ideia de sentir outra vez, de reviver incessantemente aquilo que feriu. Costuma nascer de sensações de injustiça e pode ser despertado por humilhações, discriminações, rejeições — marcas que não cicatrizam sozinhas quando são ignoradas.
Quem nunca se pegou remoendo uma mágoa por meses, às vezes por anos? Quem nunca sentiu esse peso emocional difícil de nomear, mas impossível de ignorar? O ressentimento é universal e, ainda assim, profundamente mal compreendido. Ele atravessa nossas relações, contamina nossos gestos e silencia afetos. Pode nos aprisionar ou nos libertar — tudo depende da forma como lidamos com ele.
Na verdade, quase tudo em nossa vida pode se tornar veneno ou remédio, conforme o olhar que lançamos e as escolhas que fazemos. Guardar mágoas não nos protege; apenas prolonga a dor. O que parece força, muitas vezes, é apenas resistência ao movimento de soltar.
Talvez o mais importante seja reconhecer o que carregamos. Identificar as dores, admitir ressentimentos, compreender — com honestidade — nossa parcela de responsabilidade. Só então é possível expurgar o que pesa, perdoar quem feriu (inclusive a nós mesmos) e abrir espaço para a paz e a leveza do espírito.
Porque abrigar sentimentos negativos é como caminhar com pedras nos bolsos: o passo fica curto, o corpo cansa mais cedo, e o caminho parece sempre mais árduo do que realmente é.
Que possamos, então, fazer limpezas periódicas da alma. Esvaziar o que pesa. Arejar o que escureceu. E seguir mais leves — não porque esquecemos, mas porque escolhemos não carregar mais aquilo que já cumpriu seu tempo.
Cida Guimarães
29/12/25


