
Tenho uma sobrinha, a Jane, que vive me dizendo que eu deveria relatar as histórias, fatos e acontecimentos que marcaram a minha vida — não como lições formais, mas como memórias que respiram, tropeçam, riem e, às vezes, assustam.
Fiquei pensando nisso e percebi que há, de fato, muito a contar. Histórias de superação, de espanto, algumas cômicas, outras inquietantes — um pouco de tudo, como é a própria vida.
Pensando assim, resolvi começar uma série de relatos: CONTOS DE MINHA VIDA – Eles não serão cronológicos. Virão conforme a memória permitir, conforme o momento presente os convoque, para me fazer pensar e, quem sabe, lançar alguma luz sobre situações atuais.
Hoje, meus pensamentos estavam voltados para a intuição. Acredito que sou bastante intuitiva. Não possuo, entretanto, a capacidade mediúnica de minha mãe, que previa acontecimentos e dizia coisas que ficaram gravadas em mim, para sempre. Ainda assim, aprendi cedo a respeitar esses sinais silenciosos — aquela sensação que não grita, mas insiste.
Conto de hoje: 1º ) Viagem com Sonho de Desastre

O ano, creio, era 1975 ou 1976 — penso mais em 1975, pois as meninas ainda eram bem pequenas. Fomos meus pais, eu, meu marido de então, e as três crianças de carro até Montevidéu. Naquela época, as crianças viajavam soltas no banco de trás. Não havia cadeirinhas, cintos de segurança, nem airbags. O carro era um Alfa Romeo grande, confortável, e a viagem transcorreu tranquila.

Ficamos hospedados em um hotel antigo, cujo elevador tinha aquelas grades que lembravam uma cela. Meio assustador! Ainda assim, guardo boas recordações: almoços maravilhosos, passeios leves, e a alegria do convívio com meus pais; as crianças amando tudo e meu marido, feliz, ao ganhar algum dinheiro no casino. Deu para pagar o hotel.
Um dia antes de voltarmos, minha mãe contou que sonhou que sua casa havia sido arrombada. Preocupação imediata. Naquela época, não havia celulares para ligar e obter notícias. Ficamos à mercê da imaginação, que sempre exagera os medos.
Ao retornarmos, ao chegar à casa de meus pais, pedi que Cleísthenes descesse primeiro para verificar se estava tudo bem. Tudo tranquilo. Aliviados, seguimos, então, para nossa casa. E foi aí que veio o choque: havia um guarda sentado no jardim. Nos assustamos. Sim, nossa casa havia sido arrombada. O sonho estava correto só com a casa estava errada.
Levaram joias, um revólver e deixaram um rastro de destruição. Um horror! Rebentaram uma das grades da janela do quarto das crianças, jogaram roupas e mantimentos no chão. Era um verdadeiro caos.
Tínhamos deixado em casa minha empregada e a da minha mãe, para cuidarem da casa e dos cachorros. Elas nos contaram uma história horripilante: disseram que não ouviram nada, que acordaram com os ladrões já dentro do quarto, armas apontadas para suas cabeças. Disseram que não puderam reagir, que apenas avisaram meu irmão mais velho, que chamou a polícia, e deixou um guarda, como vigilante, pois a casa havia ficado vulnerável.
Ficamos apavorados. E profundamente penalizados pelas meninas. Mas, como se diz, a mentira tem pernas curtas. Anos mais tarde, prenderam um dos assaltantes quando este tentou comercializar o revólver roubado. Ele contou como tudo realmente havia acontecido: eram dois. Ficaram de campana, observaram a rotina e esperaram o momento em que as duas saíram. Só então arrombaram a casa.
Foi assim que a verdade veio à tona, sem alarde, mas com peso. E é nesses momentos que entendemos como nossas intuições e premonições não devem ser ignoradas. Nem sempre a verdade é evidente à primeira vista, mas ela encontra caminhos para emergir. Cabe a nós aprender a escutar os silêncios, os sinais sutis — e confiar mais naquele pressentimento discreto que, tantas vezes, tenta nos alertar.
Cida Guimarães
14/01/2026


