
Que fascínio temos por tudo que ainda não foi vivido, que ainda é só sonho e imaginação. Criamos fantasias, idealizamos, projetamos nossas carências. Talvez resida aí o naufrágio de muitos relacionamentos. Quando nos deparamos com a realidade e esta é muito distinta do sonho, a decepção é inevitável.
Pensei nisto lembrando uma história de minha mãe. Ela passou a maior parte de sua vida pensando e lembrando um noivo que teve antes de se casar com meu pai. Histórias não vividas carregam um charme insuperável!
Vamos à história:
Minha mãe foi uma mulher incrível: forte, de temperamento firme e atitudes claras. Numa época em que as mulheres se calavam, não tinham opinião nem espaço para se posicionar, ela se colocou — muitas vezes de forma contrária à de meu pai. Ainda assim, era feminina, vaidosa, amorosa e profundamente dedicada.
No fundo, uma sonhadora que enfrentou inúmeras batalhas e foi capaz de apoiar, lutar e imprimir sua marca de autonomia, valor, amor e união. Era quem aglutinava e mantinha a família unida. Nos reuníamos, sempre, na casa de meus pais, aos domingos e isto permaneceu ao longo de sua vida. Nos aguardava com salgadinhos, docinhos, refrigerante, etc. Sempre servia algo e passávamos a tarde lá, papeando.
Conheceu meu pai quando ainda era noiva. Um noivado que acabou desfeito por intrigas. Nunca me contou em detalhes o que aconteceu, mas sempre se referia a esse noivo como um amor não realizado, quase mítico. Quando viu meu pai no cinema, encantou-se: a cabeleira farta, os olhos lindos. Meu pai se apaixonou por ela e soube esperar. Aliás, foi sempre muito apaixonado, bem mais do que ela.
Meu pai, como todos nós, era controverso. Brincalhão, bem-humorado, mas também sério, preocupado, ansioso e de regras claras. Foi ele quem impôs limites bem definidos e me ensinou a valorizar o dinheiro ganho com suor. Foi também ele que me incentivou a ser professora.
Começou a trabalhar aos doze anos para ajudar em casa. Minha avó, professora, ficou viúva cedo, com quatro filhos para criar. Meu pai batalhou, formou-se contador, tornou-se sócio de uma empresa e conseguiu proporcionar à família uma vida bastante confortável.
Minha mãe, filha de militar, herdou uma pensão de meu avô, o que lhe garantiu certa independência financeira, após a morte de meu avô que como filha temporã, não cheguei a conhecer. Estava sempre fazendo cursos e era extremamente habilidosa nos trabalhos manuais. Pintava, costurava, bordava, fazia arranjos florais e bolos artísticos, que meus filhos adoravam. Era, como se dizia, muito prendada. Além disto era humana e espiritualizada. Conto esta história em outro episódio.
Voltando à história.
Anos depois do noivado desfeito, meus pais iniciaram um namoro que acabou se transformando em casamento. Meu pai, lamentavelmente, desenvolveu glaucoma e também sífilis — minha mãe dizia que ele fora muito gaudério. Após o casamento, enfrentaram muitos problemas de saúde e financeiros. O glaucoma, mal diagnosticado e tratado à época, acabou levando à perda da visão de um dos olhos, e a cabeleira farta também foi, aos poucos, desaparecendo.
Entre lutas, apoio mútuo e rusgas, viveram um amor e uma convivência de quase sessenta anos. Após a morte de meu pai, acredito que minha mãe finalmente se deu conta de que ele foi, sim, o amor de sua vida. Juntos, puderam fazer inúmeras viagens, e herdei dela o gosto pela escrita — ela registrou muitas dessas experiências em relatos cheios de sensibilidade. De ambos, ficou meu encanto por viagens, um espírito de luta e muita resiliência.
Como somos capazes de suspirar pelo que não tivemos e, ao mesmo tempo, deixar de apreciar plenamente aquilo que estamos vivendo?
Talvez só o tempo, com sua delicadeza tardia, nos ensine que o amor verdadeiro nem sempre é o que sonhamos, mas aquele que permanece, resiste e caminha conosco até o fim.


Eu e meu pai em Capão da Canoa. Meus 15 anos com meus pais.
Cida Guimarães
16/01/2026


