
Sou hoje espírita — ou talvez seja mais justo dizer que foi no Espiritismo que encontrei a filosofia capaz de acolher, sem pressa nem simplificações, as incongruências, diferenças e coincidências da vida. Aquilo que antes me parecia disperso ganhou, pouco a pouco, uma lógica íntima, não rígida, mas profundamente humana.
Nessa visão, Deus não é um juiz distante, mas um espírito justo que concede às Suas criaturas o livre-arbítrio: a liberdade de escolher, errar, aprender e recomeçar. Cada escolha traz em si a responsabilidade por seus efeitos, vividos nesta existência ou em outras. Não há castigo definitivo, apenas caminhos de crescimento e aperfeiçoamento.
A dor, quando vem, não é fim — é passagem.
Minha aproximação com o Espiritismo não foi súbita. Nasceu de vivências acumuladas ao longo de uma formação diversa, quase errante. Meu ensino primário — como se dizia à época, da primeira à quarta série — foi no Colégio Americano, de orientação protestante, onde desde cedo convivi com a língua inglesa e outra forma de fé. Depois, devido à circunstâncias de vida, passei um ano no Colégio Israelita, onde fui apresentada à tradição judaica, aos rituais, às festas, ao iídiche — um mundo novo que se abria sem pedir que o anterior fosse negado. Tudo aprendizado.
Mais tarde, no ginásio, estudei no Santa Inês, instituição católica, onde fiz a primeira comunhão. O segundo grau, hoje chamado de ensino médio, foi no Júlio de Castilhos. Olhando em retrospecto, é fácil perceber como minha formação espiritual foi múltipla, atravessada por crenças distintas, como se a vida me preparasse para não me fixar em uma única lente. Ainda assim, foi dentro de casa — nos silêncios, nos medos e nos acontecimentos não explicados — que algo começou a me conduzir, lentamente, ao Espiritismo.
Mas este conto não é sobre mim.
É sobre minha mãe-EMERY
Criada no Catolicismo, ela era filha de Maria no sentido mais profundo da expressão: devota, praticante, fiel. Sua fé não se resumia às palavras das orações, mas se manifestava nos gestos cotidianos, na confiança silenciosa, na maneira como enfrentava o sofrimento sem revolta.
Ela me contou que, quando eu ainda não havia nascido e meus irmãos eram pequenos — creio que apenas Laerthe e Zeca —, começou a perder a voz. Ficou afônica. No início, pensou tratar-se de algo passageiro, consequência de uma gripe comum. Mas os dias passaram, a rouquidão persistia, a voz falhava cada vez mais, e a inquietação se instalou.
Vieram as consultas, os exames, os especialistas. Nenhum conseguia apontar a causa. O que lhe ofereceram, em vez disso, foi um prognóstico inquietante: se o quadro persistisse, poderia evoluir para algo mais grave, talvez um câncer. Essa possibilidade passou a acompanhá-la em silêncio, como uma sombra que não se afasta.
Foi então que entrou em cena a tia Zulica.
Ela não era tia de sangue, mas dessas presenças que a vida escolhe para serem família. Amiga íntima de minha mãe, madrinha de Cláudio, meu irmão, tratava-me como se eu também fosse sua afilhada. Eu a adorava. Zulica era espírita e, movida por cuidado e intuição, começou a insistir para que minha mãe aceitasse participar de uma sessão espírita.
Minha mãe resistia. Dizia que não iria, que acabaria rindo, que aquilo não fazia sentido para ela. Mas a insistência afetuosa venceu. Um dia, ela aceitou.
E não riu. Chorou. Chorou muito.
Vieram outras sessões. E, pouco a pouco, a voz foi voltando. O corpo respondeu, mas algo mais profundo também se transformou. Não foi apenas a cura da afonia — foi uma mudança de olhar, uma ampliação da fé. Minha mãe não abandonou Maria; apenas passou a compreender Deus de outra forma, mais próxima, mais misericordiosa.
Foi assim que ela se tornou espírita: não por curiosidade, nem por estudo, mas por experiência. Por dor, por acolhimento e por cura. E talvez tenha sido ali, antes mesmo de eu nascer, que o Espiritismo começou a entrar na minha vida — não como doutrina, mas como herança silenciosa, passada de mãe para filha, entre lágrimas, esperança e recomeço.
Durante muito tempo, não percebi o quanto aquela história — a perda da voz de minha mãe, suas lágrimas contidas, a cura que veio de onde ela menos esperava — me habitava em silêncio. Cresci como quem carrega uma semente sem saber exatamente o que ela é, apenas sentindo que algo ali pulsa, à espera de tempo e de sentido.
Na vida adulta, vieram também minhas próprias afonias — não na voz, mas na alma. Houve momentos em que não soube nomear a dor, em que as respostas pareciam sempre incompletas, e as explicações racionais, por mais bem formuladas, não alcançavam o fundo do que eu sentia. As perdas, os desencontros, as injustiças aparentes da vida me atravessaram como atravessam a todos, mas em mim deixavam uma pergunta insistente: por quê?
Foi então que, quase sem perceber, retornei àquele território que me antecedia. O Espiritismo não surgiu como ruptura, mas como reconhecimento. Como quem entra numa casa antiga e percebe que o cheiro, a luz e o silêncio já lhe eram familiares. Ali encontrei não respostas prontas, mas um alívio profundo: a ideia de que a vida não se esgota no que é visível, de que os encontros não são aleatórios, e de que até a dor carrega uma pedagogia secreta.
Passei a compreender minha mãe com outros olhos. Sua fé silenciosa, sua aceitação sem resignação cega, sua coragem discreta. Ela não falava muito sobre espiritualidade, mas vivia como quem confia. E foi essa confiança que, sem discursos, me ensinou que crescer espiritualmente não é escapar do sofrimento, mas atravessá-lo com sentido.
Hoje, quando olho para trás, percebo que minha trajetória espiritual nunca foi fragmentada, apenas plural. Cada crença, cada rito, cada passagem deixou marcas — como degraus de uma escada que só faz sentido quando vista de cima. O Espiritismo, para mim, não anulou nada do que veio antes; apenas costurou.
Se herdei algo de minha mãe, foi isso: a capacidade de escutar o invisível, de respeitar o tempo das curas e de acreditar que a vida, mesmo quando nos cala, ainda está nos ensinando a falar — talvez com menos palavras, mas com mais verdade.
E assim sigo. Não com certezas absolutas, mas com uma fé que respira, que aprende, que recomeça. Uma fé que não fecha caminhos, mas os amplia. Como se, em algum ponto do tempo — antes mesmo de eu nascer — minha mãe tivesse recuperado a voz para que, um dia, eu pudesse encontrar a minha.

Cida Guimarães
19/01/26


