
Pouco a pouco, nossas tristezas vão se acumulando, como pilhas cuidadosamente organizadas. Até que, de repente, qualquer pequeno incidente — uma lembrança, um detalhe aparentemente banal — faz tudo desabar. Ao olhar essas pilhas, parece que está tudo resolvido, guardado, embalado. Mas são frágeis. Não suportam um balanço mais forte.
Como vasculhar nossos cantos mais escondidos e eliminar o entulho formado pelas lembranças mais doloridas? Como limpar e estancar uma dor que insiste em se renovar, vez após vez?
Tenho seguido em frente, mas, hoje, quando tudo está mais calmo e tenho mais tempo percebo quanta dor está empacotada. Há muitas gavetas emperradas, muita tralha acumulada que precisa ser removida. Represo tanto, seguro tanto, que minhas comportas estão quase cedendo. E então surgem as perguntas: o que fazer? Como resolver?Detesto ser objeto de piedade, causar preocupação ou dar trabalho. Por isso escondo a dor e sigo. Aprendi a caminhar mesmo ferida, a sorrir mesmo cansada, a continuar mesmo quando tudo em mim pede pausa.
A escrita me ajuda. Aqui lavo a alma. Despejo mus tormentos, organizo o caos, e saio um pouco mais leve — não curada, mas respirando melhor. Sei que preciso me ocupar mais. Vou me inscrever em cursos, preencher meus dias, criar movimento. Não para fugir de mim, mas para não permitir que a dor ocupe todo o espaço. Entre uma atividade e outra, talvez eu vá, aos poucos, abrindo as gavetas, descartando o que pesa demais e acolhendo o que ainda pode ficar.
Porque viver não é nunca estar ferida, mas aprender a cuidar das próprias rachaduras.
E sigo assim, abrindo gavetas com mais delicadeza, limpando o que dói, organizando o que fica. Algumas memórias ainda pedem tempo, outras já podem ser guardadas sem peso.
Aos poucos, a casa interna vai ficando mais clara. Entra luz onde antes só havia acúmulo.
O que era entulho vira aprendizado, o que era dor vira silêncio manso.
E sigo acreditando que virão dias mais luminosos — com gavetas limpas, organizadas, e espaço suficiente para que a vida volte a respirar inteira.
Enquanto isso vamos de poesia..

EVOLUÇÃO
Um novo olhar, um novo sentir, um novo agir.
As camadas vão sendo retiradas, e como uma cebola descascada,
pouco a pouco vai surgindo um novo ser ainda incerto querendo
provar, experimentar, renascer.
Um novo olhar nasce em silêncio.
Um novo sentir aprende a respirar.
Um novo agir ensaia os primeiros passos.
Camada por camada, a pele antiga cede,
como cebola que chora ao se revelar.
Do centro- ainda nu ainda trêmulo surge um ser sem nome
que deseja o gosto do mundo, o risco do toque,
a vertigem de recomeçar.
Não sabe ainda quem é, mas sabe que vive.
E isso, por ora, basta.
Cida Guimarães
23/01/26

