
Alguns dias o mundo acorda pesado. Parece que empurra a gente escada abaixo, sem aviso, sem corrimão. A vida dá cambalhotas conosco dentro dela e, quando percebemos, estamos no fundo do fosso — olhando para cima, tentando lembrar em que momento perdemos o equilíbrio. Ainda assim, curioso mundo.
O mesmo que derruba é o que surpreende. Entre uma queda e outra, ele insiste em nos mostrar pequenas maravilhas: um gesto inesperado, uma palavra que acolhe, um silêncio que acalma. Como se dissesse, em voz baixa, que nem tudo é ruína.
Há belezas incontáveis, e o mundo, quando se revela, é puro deslumbramento. A feiura, quase sempre, foi criada pelo homem — que derruba florestas, fere os morros com construções mal pensadas e polui as próprias águas que lhe sustentam a vida. Ainda assim, a natureza resiste, insiste em florescer, mesmo ferida.
Viver é esse exercício meio desajeitado de rir e chorar no mesmo dia.
Gritar, espernear, cansar. E, no intervalo entre um tropeço e outro, aprender.
Evoluir. Tornar-se — ou ao menos tentar tornar-se — alguém um pouco melhor do que ontem.
Não é um caminho reto, nunca foi. É um emaranhado de bifurcações, ruas sem saída, estradas de chão batido, poeira nos olhos e nenhuma placa indicando o rumo certo.
A gente se perde. Às vezes enlouquece um pouco. Pede orientação, segue mesmo sem entender direito.
E então, sem aviso, surgem oásis: instantes de beleza e paz que fazem tudo valer a pena.
Nessas horas, é preciso acreditar. Em Deus, em nós, na força silenciosa que insiste em nos manter de pé. Seguir atentos, gratos, com fé — mesmo quando a fé anda manca, mesmo quando a gratidão precisa ser aprendida à força.
Os problemas vêm, claro. Não estamos aqui a passeio. Dificuldades, imprevistos, perdas, desastres — tudo faz parte do pacote chamado vida. Mas não nos cabe encolher, nem vestir o figurino de coitadinhos do destino.
Cabe recolher os frangalhos, respirar fundo e continuar. Um passo depois do outro. Porque, no fim das contas, a caminhada importa menos pelo quanto doeu e mais pelo que deixou para trás.
Que seja, então, um rastro. De luz. De amor. De humanidade.
Cida Guimarães
25/01/26

