
Não sei bem por que hoje me lembrei delas.
Passei a manhã inteira tentando descobrir se eram tias-avós, tias por afinidade, ou apenas aquelas parentes que a infância acolhe sem exigir explicação. Minha mãe teve duas irmãs — não eram elas. Meu pai não teve irmãs. Ainda assim, na minha lembrança, eram “tias”. E isso bastava.
Louca essa nossa memória. Guarda cenas inteiras e perde o enredo. Preserva rostos e apaga os nomes. Confunde os laços e mantém intacta a emoção.
A imagem que me visita é sempre a mesma. As duas chegando juntas. Nunca as recordo separadas. Vinham como um par inseparável, quase cômico, lembrando um antigo filme de O Gordo e o Magro.

Uma alta, muito magra, de postura ereta e olhar sério — tia Quinota.
Falava pouco, mas quando falava, era firme. A outra, tia Chiquinha, baixinha e arredondada, parecia carregar o riso no bolso do vestido. Gesticulava muito, comentava tudo, ria antes de terminar a frase.
Eu não sei de onde vinham. Não sei se moravam juntas. Não sei sequer se eram irmãs.
Mas lembro da porta abrindo.
Lembro do som dos passos no piso. Do leve cheiro de talco e tecido guardado. Lembro de me esconder atrás da cortina para observá-las melhor — como se fossem personagens que saltavam da vida comum para um pequeno palco que era a nossa sala.
Elas falavam entre si numa cumplicidade silenciosa, como quem compartilha histórias antigas demais para serem explicadas às crianças.
E eu, pequena, tentava decifrar aquele código invisível que unia as duas.Hoje, mais de sessenta anos depois, percebo que talvez o que me marcou não tenha sido quem eram — mas o fato de chegarem sempre juntas. Como se uma completasse a outra. Como se a diferença entre altura, peso, temperamento e voz fosse apenas a moldura de algo maior: companhia.
Talvez fossem irmãs. Talvez apenas amigas. Talvez parentes distantes que escolheram caminhar lado a lado.
A memória não me devolve os fatos. Mas me devolve a cena. E elas continuam chegando. A porta se abre, o tempo se dobra, e por um instante volto a ser menina, espiando duas mulheres que eu nunca compreendi totalmente — mas que, de algum modo, me ensinaram que ninguém caminha sozinho quando encontra seu par de jornada.
E talvez seja isso que fica. Não o parentesco. Mas a presença.
Cida Guimarães
23/02/2026


