
Este tema da comparação surgiu após a leitura de Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévsky. Leitura densa, por vezes difícil — profundamente perturbadora.
Ela nos empurra para dentro, para esse “subsolo” que evitamos encarar,
onde habitam nossas contradições, nossas carências silenciosas e essa insistente
necessidade de aprovação e comparação com o outro.
Uma viagem inquieta — quase caótica — que, de algum modo, repetimos em nossas próprias lutas interiores. A inquietação nasce quando deixamos de ser para começar a nos medir.
Olhar o outro e, nesse espelho distorcido, tentar encontrar valor para si — é aí que algo se perde. Porque a vida não se revela na comparação, mas na experiência íntima de ser.
Cada existência é única, intraduzível, impossível de ser colocada lado a lado como números em uma balança. E, ainda assim, insistimos. Esquecemos que aquilo que buscamos fora talvez já exista, silencioso, dentro.
Que não há caminho mais curto para a infelicidade do que abandonar a própria essência para habitar a vida do outro. Mas há um retorno possível. Um instante de lucidez, em que cessamos a medida e apenas somos. E então, quase sem perceber, algo se acalma.
Porque a paz não vem de ser mais, nem melhor, nem maior — mas de ser, simplesmente, inteiro. E talvez seja aí, nesse espaço sem comparação, que a vida volte a florescer — não como disputa, mas como presença.

COMPARAR
Olhar, julgar, comparar?
Por quê? Para quê?
Não há como medir
o que nasce distinto,
o que é único.
Há que ser real, autêntico.
O outro é o outro — e basta ser visto,
não para confronto, mas para encanto.
Que se admire, apenas.
E que cada um siga
em direção ao próprio ápice,
que não se compara,
não se hierarquiza —é só o seu,
inteiro, possível…e em constante construção.
CIDA GUIMARÂES
27/03/2026

