
Minhas filhas e netas organizaram uma festa surpresa— linda, com muito amor e cuidado,— arranjos com fotos minhas de diferentes épocas. Convidaram o restante da família e foi lindo ter todos reunidos. Os dizeres do bolo eram: De Repente 80!
Incrível… até eu me surpreendo por estar completando oito décadas de vida.
É um misto de susto, incredulidade e profunda gratidão.
Olho para trás e vejo tantas outras: Marias, Maricotas, Cidas. Tão distintas e, ao mesmo tempo, tão iguais na essência.
A vida foi como uma rocha bruta que, aos poucos, fui esculpindo — ou talvez ela tenha me esculpido. Tirando excessos, lapidando arestas, moldando o que sou hoje.
Essas décadas, que agora parecem breves, muitas vezes passaram em velocidade quase supersônica. Eu não as vi passar. Estava ocupada demais, vivendo à frente, no piloto automático — sentindo, sim, mas nem sempre vivendo cada experiência em sua plenitude.
Hoje, em retrospecto, consigo enxergar o que foi demais, o que faltou…Mas já não pesa. É lição. Sei que, com a experiência de agora, faria diferente muitas coisas. E ainda assim, houve de tudo um pouco: sucessos e fracassos, amores bem e mal vividos, momentos belos e outros profundamente tristes, perdas dolorosas e conquistas saborosas.
Se existe uma medida para uma vida bem vivida, talvez eu tenha seguido algumas: plantei árvores, construí casas, escrevi livros — dois, na verdade — e ainda colaborei em outros. Fui professora, e com meus alunos aprendi tanto quanto ensinei. Viajei, conheci lugares, cresci como pessoa. Tive uma pousada e conheci pessoas incríveis— fiz lindas amizades, mas nada foi mais desafiador do que ser mãe. Criar, orientar, permanecer ao lado dos meus filhos, em suas batalhas. Uma pena não existir escola para isso — eu teria estudado.
Errei, sim… mas sempre com amor. E depois, a delícia de ser avó.
E assim chego aos 80: vividos, sentidos, às vezes doídos — mas, sobretudo, crescidos. Encerrei?
Por mim, não. Ainda há garra, ainda há desejo, ainda há vida pedindo para ser vivida.
E, quem sabe, agora…com mais presença, mais leveza — e ainda mais verdade.
Alguma fotos:




Cida Guimarães
12/04/26


