
Hoje, em nossa aula diária do Clube Estoico de Leitura, o professor Bryan, trouxe um trecho das Meditações de Marco Aurélio.

Um pensamento simples à primeira vista, mas que ficou reverberando em mim: como encaramos nossos encontros e debates com os outros?
Como um treinamento… ou como um campeonato? A pergunta parece inocente, mas carrega um espelho incômodo. Quantas vezes entramos em uma conversa já armados, prontos para defender nosso ponto de vista como se fosse um território ameaçado?
Reagimos, interrompemos, insistimos. Não ouvimos para compreender — ouvimos para responder. E, no fundo, queremos vencer. Vencer o argumento, vencer o outro,
vencer a situação. Mas… vencer o quê, exatamente?
Se olharmos com mais honestidade, talvez percebamos que, por trás de cada opinião firme, existe alguém tentando fazer o seu melhor — ainda que com limitações, medos, crenças distorcidas ou simples desconhecimento. Assim como nós.
E então a pergunta muda de lugar. E se, em vez de um campeonato, cada encontro fosse um exercício? Um treino silencioso de escuta, de humildade, de abertura? Um espaço onde não precisamos provar que estamos certos, mas onde podemos, quem sabe, nos aproximar um pouco mais da verdade — ou, pelo menos, de uma compreensão mais ampla?
Não se trata de abdicar do que pensamos, nem de nos tornarmos passivos. Trata-se de sustentar nossas ideias com firmeza, sim, mas com gentileza. Com a consciência de que também erramos, também interpretamos mal, também enxergamos apenas uma parte do todo.
Falta-nos, talvez, essa lembrança essencial: todos estão em busca. Em busca de si mesmos, de sentido, de reconhecimento, de algum tipo de paz. Todos, à sua maneira, tateando no escuro.
Quando esquecemos isso, endurecemos. Quando lembramos, algo em nós amolece.
Meu Deus… se essa compreensão estivesse mais presente em nossos gestos cotidianos — nas conversas simples, nas discordâncias, nos pequenos atritos — talvez as relações ganhassem outra textura. Talvez houvesse mais escuta do que ruído, mais pontes do que muros.
E quem sabe — em uma escala maior — menos conflitos, menos guerras, menos necessidade de vencer. Porque, no fundo, talvez não se trate de ganhar discussões, mas de não perder a humanidade no caminho.
E é curioso pensar que essa mudança não exige grandes feitos. Começa quase invisível, dentro de cada um de nós, no instante exato em que escolhemos ouvir de verdade. Talvez seja aí, nesse pequeno gesto silencioso, que a paz — tão distante quando olhada de longe — comece, enfim, a se aproximar.
“A arte de viver assemelha-se mais à luta do que à dança, na medida em que deve estar pronta e firme para enfrentar ataques súbitos e inesperados.” MARCO AURÉLIO
Expectativas, visões distintas?
Sim, somos ilhas — com configurações próprias,
por vezes totalmente estranhas umas às outras.
Não compreendemos, e muitas vezes nem aceitamos,
a forma como o outro se posiciona.
E o outro, por sua vez, também não acolhe o nosso modo de ser.
Ilhas separadas, divididas por um vasto oceano de hábitos,
crenças e conceitos. Como, então, transpor esse hiato entre
compreensão e aceitação?
Talvez tentando, pouco a pouco, nos despir das certezas
que nos vestem, e aprender a olhar o outro com mais delicadeza —
com amorosidade, com uma aceitação que não exige, apenas acolhe.
Cida Guimarães
26/04/26

