
Curioso, não é? Quase tudo que nos fere parece começar com in- ou im-,como se a língua tivesse aprendido a vestir a dor com o mesmo prefixo.
Mas não é o prefixo que escurece a palavra —somos nós, com nossa memória seletiva, que gravamos mais fundo o que falta, o que falha, o que dói.


O cérebro é assim: se alarma, registra, repete. E então ingratidão, incompreensão, inverdade, inconsistência soam mais altas que o silêncio do que é bom.
Mas, no mesmo lugar de onde nascem essas sombras, nascem também luzes que quase esquecemos: infinito, incomparável, inabalável, indelével, palavras que abrem portas em vez de fechá-las.
Talvez seja isso: a vida não nos fala em negativo — ela apenas nos recorda o que falta para que possamos nomear o que buscamos. E no fim, apesar dos ins que nos atravessam, é sempre o que permanece inteiro em nós, silencioso, resistente, que segue abrindo caminho —como um fio de luz que insiste em sobreviver mesmo dentro da palavra mais escura.
Como você atravessa as incompreensões, as ingratidões, as inconsistências, a impermanência — e todas as outras sombras que começam com ‘im/In’?
Dizem que não devemos esperar reciprocidade, que o gesto deve ser livre, sem contrato de retorno. Mas somos humanos… e quando o outro se revela de um jeito que não imaginávamos, algo em nós desaba silenciosamente. Como não esperar? Como não se ferir? Como não permitir que a frustração ou a indignação nos alcancem? Se alguém souber a fórmula secreta para sobreviver a esses desalinhamentos da alma, por favor, partilhe comigo.
Talvez seja isso: aprender a olhar para o positivo, mesmo quando ele parece exceção. Não deixar que as sombras apaguem a luz — ainda que ela brilhe distante, como um farol quase perdido na névoa. Seguimos em direção a ele, porque é na busca que a claridade renasce.
Incauto sentir, essa emoção tão intensa,
quando o que nos devolvem é só incompreensão.
Haverá intenção? Ou é pura e total falta de noção?
É impossível definir — resta apenas o triste peso da insatisfação.
Oh Deus, como é difícil viver
entre a intolerância e a ingratidão!
Cida Guimarães
04/12/25


