
Encontro-me em um momento mais introspectivo da minha vida — um tempo de busca, de querer compreender melhor a mim mesma. Inscrevi-me em uma Academia de Filosofia e escolhi também estudar o Budismo, que, de forma tão profunda, nos conduz a uma verdadeira viagem interior.
Hoje me deparei com três palavras vindas do páli — a língua dos ensinamentos originais do budismo — conhecidas como as “Três Marcas da Existência”.
Não possuem tradução exata em português, mas podemos nos aproximar de seus sentidos:
1. Anicca — Impermanência. Tudo passa. Tudo está em constante transformação. Nada é fixo ou duradouro — emoções, situações, relações, até nós mesmos.
2. Dukkha — Sofrimento, insatisfação, inquietação. Nada preenche por completo. Vai além da dor física — é aquela sensação sutil de que algo nunca é inteiramente suficiente ou estável. Até mesmo o prazer carrega em si uma leve incompletude, pois é passageiro.
3. Anatta — Não-eu. Não há um “eu” fixo ao qual se apegar. O que chamamos de “eu” é, na verdade, um conjunto de processos em constante mudança — corpo, mente, emoções, percepções.
Uma marca conduz à outra… como um fio invisível que costura nossa experiência de existir. Como exercício, recebi três propostas de reflexão:
1. Algo ao qual estou me apegando e não quero deixar ir… para eu sentir a Anicca
Surpreendentemente, essa foi a mais difícil. Hoje, após tantas perdas e mudanças sucessivas, existe quase um receio de apego. Antes mesmo de criar raízes, já surgem alertas, dúvidas, razões para não se entregar por inteiro… como se proteger-se fosse uma forma de evitar novas dores;
2. Algo que precisei deixar ir esta semana. Dukkha
Havia um pendente que ganhei há alguns anos, da minha filha Patricia — de Nossa Senhora Aparecida, em prata e marcassita. Lindo… e, de repente, simplesmente desapareceu. Procurei por tudo. Não encontrei. A tristeza veio — inesperada, silenciosa — e, junto dela, a lembrança inevitável da impermanência… da finitude das coisas. Foi preciso aceitar, aos poucos, e deixar que o sentimento também passasse;
3. Descrever uma forte emoção sem usar o “eu”… Anatta
Uma tristeza sutil, quase suspensa no ar. Como algo que poderia ter sido mais… e talvez ainda possa vir a ser. A dor estranha de perder aquilo que, na verdade, nunca chegou a ser plenamente vivido.
Com todas estas reflexões surgiu o poema abaixo;
Entre o Que Passa e o Que Somos
Tudo passa…como a luz suave de um fim de tarde que por mais que encante, não se detém.
Tentamos segurar o instante, prender no peito aquilo que nos toca, mas escorre…
como água entre os dedos abertos.
E então sentimos — essa leve dor que não é dor inteira,
esse vazio sutil que se insinua mesmo nos momentos mais belos.
Como se nada, nunca, fosse totalmente suficiente…como se tudo carregasse em si um adeus silencioso.
E talvez seja porque não há um “nós” fixo para guardar tudo isso. Somos também passagem…
somos mudança… somos feitos do mesmo sopro que transforma o mundo a cada instante.
E, ainda assim… há uma estranha beleza nisso tudo.
Porque se tudo passa, tudo também pode chegar.
Se nada se fixa, nada nos aprisiona por completo.
E assim, entre perdas e começos, vamos sendo…sem precisar nos agarrar tanto,
sem precisar entender tudo. Apenas viver, sentir, e deixar ir —com a leveza de quem,
finalmente, começa a confiar no movimento da própria vida.
Cida Guimarães
19/03/26


