
O que, afinal, é a realidade senão uma construção frágil, moldada por percepções,
memórias, crenças e desejos?
Como distinguir o que é, daquilo que apenas parece ser?
Vivemos cercados de fachadas. Rostos que sorriem sem sentir.
Palavras que prometem sem intenção.
Verdades encenadas, autenticidades ensaiadas.
E no meio de tudo isso, nosso coração ainda tenta acreditar,
ainda busca um ponto fixo em meio ao fluxo.
Como se proteger do falso, da dissimulação sutil, das presenças que são ausências disfarçadas, do brilho que apenas encobre o vazio?
Como não se deixar iludir pelo que reluz, pelo que convence, pelo que agrada aos olhos mas não ressoa na alma?
E então, as palavras… Tão humanas, tão falíveis. Tão belas, mas perigosas.
Elas constroem pontes entre consciências, mas também levantam muros.
São instrumentos de revelação, mas também de engano.
Podem curar, consolar, libertar — mas também ferem, manipulam, aprisionam.
Há palavras que, mesmo ditas em voz baixa, gritam para sempre dentro de nós.
Palavras que nos atravessam como lâminas, deixando feridas invisíveis, cicatrizes profundas que o tempo não desfaz. Porque o que é dito não pode ser recolhido.
Palavras lançadas ao mundo já não pertencem mais a quem as disse.
Elas ganham vida própria, ecoam, moldam, transformam — ou destroem.
Por isso, talvez o mais verdadeiro não esteja no que se diz,
mas no que permanece no silêncio. No gesto que não precisa ser explicado.
Na presença que fala mais do que mil discursos. Na coerência entre o que se é
e o que se mostra. E no fim, talvez a única forma de saber o que é real seja silenciar
por dentro e ouvir aquilo que não grita.
Porque a verdade, ao contrário da aparência, não precisa de adornos.
Ela se impõe com a leveza das coisas inteiras.
Não seduz: revela. Não exige: repousa.
Acredito que apesar da feiura que, por vezes, nos cerca, precisamos continuar a acreditar na fantasia, no belo, nas pessoas e na vida fazendo o nosso melhor. Nossa melhor retribuição será, sempre, nossa paz interior.
Cida Guimarâes
08/08/2025


