
Gente, como é difícil entender a gente mesmo! Lidar com nossas incongruências, aturar nossas loucuras… Sim, somos seres tão complexos, ambíguos, contraditórios.
Se vivemos a sós por algum tempo, desenvolvemos manias e nos acostumamos com nosso espaço de ser, ter e agir — e aí, qualquer intrusão em nossa bolha parece uma invasão. Que horror! Viramos ursos solitários, com dificuldade de aceitar outras formas de ser e de agir.
Conviver é uma arte que exige tolerância, desprendimento e uma boa dose de aceitação do outro — independentemente de essa forma de ser ser semelhante ou totalmente oposta à nossa.
Quanto mais intimidade temos com quem entra em nosso casulo, mais difícil se torna evitar atritos. Com aqueles diante dos quais ainda mantemos certa cerimônia, disfarçamos, ocultamos, e tentamos — apesar do desconforto — mostrar nosso melhor lado.
Que ironia! Com o tempo, viramos bichos do mato: arredios, por vezes intratáveis.
Mas talvez o caminho esteja em não desistir de tentar. Em abrir frestas na bolha, pequenas, mas sinceras.
Deixar o outro entrar — e nos permitir sair — pode ser o primeiro passo para voltarmos a respirar o ar da convivência, com tudo o que ela tem de incômodo, imprevisível e, ao mesmo tempo, profundamente humano. Mas talvez o caminho esteja em reaprender a abrir frestas.
Deixar o vento entrar, mesmo que bagunce um pouco a casa por dentro.
Permitir que o outro nos toque, ainda que de leve, e aceitar que o convívio também é risco, mistura, desordem.
E, quem sabe, descobrir que a vida fica mais viva quando o nosso silêncio encontra eco em outra voz — e que até os ursos solitários, às vezes, também sentem falta de um abraço.
Cida Guimarães
16/10/25


