
Quando a vida te vira de cabeça para baixo, quando já não tens certeza de quase nada —apenas de milhares de perguntas e pouquíssimas respostas —quando percebes que já trilhaste quase todo o caminho, e que agora a estrada se encurta, com poucos ou quase nenhum desvio, e ainda assim te sentes meio perdido, sem saber ao certo como encerrar essa louca viagem…
Olhas para trás. Vês um caminho árduo, repleto de passagens bonitas, feitos gloriosos, outros lamentáveis, penosos, extremamente dolorosos. Constatas que tiveste muitas vitórias, mas o que te pesa são os desacertos, aquilo que poderia ter sido feito melhor.
A estrada agora é curta. Já não há muito tempo para plantar e regar —talvez apenas para colher.
Essa é, creio eu, uma constatação que toca quase todos os que se aproximam das oito décadas de vida.
Sou grata, sim. Acredito ter colhido muito —mas, como tantos mortais, meus olhos, por vezes, recaem mais sobre o que faltou do que sobre o muito que tive. E eu tive muito. Mais do que a maioria pode sonhar.
Conquistei reconhecimento e gratificação na carreira, não só pelos cursos que fiz, pelas bolsas de estudo, que conquistei com meu trabalho, ou pelos cargos que ocupei, mas, principalmente, pelas pessoas com quem cruzei o caminho —e com quem, de alguma forma, pude contribuir, e contribuíram para comigo.
Ensinei e aprendi. Ensinar é uma via de duas mãos. Aprendemos ensinando — e a troca com os alunos é, talvez, o maior presente. Depois virei empresária e por mais de duas décadas toquei junto com Juan, meu falecido marido, o residencial Emery Village. Conheci milhares de pessoas. Muitos se tornaram amigos e frequentadores assíduos. Foi lindo, árduo e gratificante ( o bom e o ruim sempre de mãos dadas) tanto pessoal como financeiramente pois possibilitou viagens incríveis.
Tive dois longos casamentos. Colhi aprendizados, lembranças lindas… e outras, nem tanto. Criei três filhos. Vi-os crescer, amadurecer. Perdi meu filho mais velho aos 56 anos. Uma dor que me atravessa e permanece. Sou, entretanto, imensamente grata pelos anos que estive ao seu lado. Nem todos foram fáceis — mas todos me preencheram e ensinaram. Hoje, minha família, mais próxima, são minhas duas filhas amadas e duas netas adoráveis. Todos os irmãos já se foram. Sou o galho restante pois os troncos se foram há muitos anos. Há duas cunhadas, muito sobrinhos e sobrinhos-netos, que são minha grande família e que ajudam a eternizar de onde viemos. São todos, relativamente próximos e muito queridos.
Viajei por mais de 33 países e inúmeras cidades, e aprendi muito sobre outras culturas. Escrevi e publiquei dois livros ( Pedacinhos de Mim e Labirintos). O primeiro, com crônicas e poemas e o segundo com somente poemas; contribuí com vinte poemas para uma coletânea internacional ( The Poetess). que reuniu 21 poetas do mundo – Desculpa, Propagandinha- ( risada)Todos, disponíveis na Amazon.com.
Já estou contribuindo para uma segunda coletânea, esta versando sobre Paz. Vai ser lançada também com o patrocínio de Blair Smith em 2027. Vou deixar de legado: meus pensamentos, sentimentos experiências. Posso dizer, com serenidade, que sou uma pessoa afortunada.
Tive duas intervenções cardíacas e coloquei dois stents. Tenho três hérnias de disco, muitos bicos de papagaio, gastrite e intolerância à lactose. Fora isso… sou super saudável. [risos]. Houve um período em que pensei que nunca mais andaria, por causa das hérnias. Mas fisioterapia, yoga, hidro e Pilates me colocaram de volta, em forma. Recuperei-me. Nunca entreguei os pontos. Hoje, com 79 anos, carrego energia e leveza —e não me pesa o tempo que passou. Me sinto jovem, capaz, cheia de energia.
Venci inúmeras perdas, doenças, preconceitos, estigmas. E hoje, acredito, ainda tenho o que oferecer —através das minhas reflexões, dos meus poemas, das minhas histórias de vida.
Viver é uma grande aventura. Precisamos estar abertos a cair (eu, literalmente, caio muito), aprender, levantar e seguir em frente —com fé, com positividade, e com gratidão pela chance de ainda estarmos vivos e podermos, sempre, tentar outra vez.
Cida Guimarães
30/07/2025



Cida Guimarães
30/07/25


