
Dúvidas ???
Dúvidas nos atormentam, perturbam, acorrentam. Às vezes nos sacodem e nos movimentam — ou talvez façam tudo isso ao mesmo tempo. Depende da questão, depende do momento.
Algumas nos tiram o sono, nos mergulham em angústia e nos deixam perdidos na incerteza sobre como agir. Outras, ao contrário, nos impulsionam a buscar uma solução, despertando em nós energia criadora. De certo modo, somos movidos por nossas próprias dúvidas.
Como viver sem elas, se a própria vida é uma incógnita?
As dúvidas nos lembram da nossa finitude, da transitoriedade da existência, e acabam nos incitando a ousar, experimentar e viver, mesmo sem garantias no caminho.
Houve um tempo em que eu carregava mais certezas — ou achava que as tinha. Não me questionava tanto, acreditava estar no controle. Louca temeridade da juventude, que se imagina dona de tudo. O tempo, com suas turbulências, nos mostra que controle algum temos, a não ser, talvez, sobre as nossas reações diante dos acontecimentos. E mesmo aí, nem sempre conseguimos nos dominar.
Como motorista experiente, sei que preciso estar atenta: acidentes sempre podem acontecer. Posso praticar a direção defensiva, cuidar da minha parte, mas os outros podem errar ou agir de forma inesperada. Assim também é a vida: fazemos o que está ao nosso alcance, mas não controlamos o desenrolar dos fatos.
Então, o que fazer, se viver é estar cercado de dúvidas — sobre nós, os outros, o destino?
Penso que cabe a nós cultivar atenção: aos nossos sentimentos, ao nosso entorno, ao esforço de compreender quem nos cerca. E, a partir daí, escolher o melhor que pudermos. O resto… o resto entregamos nas mãos de Deus.
E talvez seja assim que a vida se desenhe: entre sinais, curvas e incertezas, seguimos.
Sigo ou Paro ?
Sigo ou paro?
Acendo o alerta,
ligo o pisca-pisca
ou simplesmente encosto
numa área segura
até decidir o rumo?
Mil decisões,
poucas definições.
Muitas dúvidas,
incertezas e hesitações.
Certezas?
Apenas uma: eu sigo.
Manobro, busco atalhos,
exploro novos caminhos.
A estrada pode ser ruim,
mas nunca me impede
de continuar.
Cida Guimarães
18/08/25



Cida, o seu texto é de uma riqueza admirável. Ele não trata a dúvida como inimiga, mas como parte essencial da vida. Você mostra com uma sensibilidade e incrível que a dúvida não apenas perturba, mas também movimenta, amplia horizontes e convida todos nós a sair do lugar-comum. É impressionante como você a descreve, ao mesmo tempo, como pedra no sapato e motor de nossa caminhada. Um olhar tão lúcido e inspirador só poderia vir de alguém que enxerga além da superfície como você.
Eu, Evaldo, acredito que a fé precisa ser raciocinada, pois, sem reflexão e consciência, corre o risco de se tornar apenas ilusão.
A dúvida tem um papel filosófico essencial: é dela que nasce a investigação, a filosofia socrática, o questionamento científico e até a fé, porque acreditar sem interrogações não seria fé, mas apenas automatismo. Como dizia Sócrates, “só sei que nada sei”. Essa humildade diante do desconhecido é a base para qualquer avanço humano, seja intelectual, espiritual ou emocional.
Cida, o seu texto também toca em algo estoico: o reconhecimento de que o controle absoluto é ilusão. Podemos decidir como reagir, podemos escolher nossas posturas diante dos fatos, mas nunca controlar o todo. Essa consciência nos liberta de uma ansiedade desnecessária e nos coloca numa atitude mais serena e resiliente frente às curvas inesperadas da vida. Epiteto, por exemplo, lembrava que o que nos causa sofrimento não são os fatos em si, mas a forma como reagimos a eles.
A metáfora da estrada é de uma sensibilidade universal: dirigir exige atenção, cuidado, prudência, mas também confiança em continuar, mesmo que o asfalto esteja cheio de buracos ou que a neblina reduza a visibilidade. Assim é viver: entre curvas, imprevistos e acidentes de percurso, o essencial é seguir, ainda que devagar, ainda que em dúvida.
A dúvida sempre caminha ao nosso lado, como sombra inseparável da existência. Nunca teremos respostas definitivas para todos os mistérios, e talvez seja justamente essa incerteza que dá encanto à vida. O que podemos saber com certeza é que, um dia, nos despediremos desta bela e enigmática jornada chamada viver. E até lá, seguimos entre perguntas e silêncios, aprendendo a transformar a incerteza em poesia e a finitude em um convite para amar mais intensamente cada instante.
O “sigo ou paro?” que ecoa em seus versos não é apenas uma pergunta prática, mas uma metáfora existencial. Quantas vezes nos vemos paralisados diante da incerteza, como se estacionar fosse mais seguro que arriscar? Mas a vida não permite longas pausas: se não seguimos, o tempo segue por nós.
Costumo dizer que o tempo não espera por ninguém. Ele não se importa se estamos alegres ou tristes, sorrindo ou chorando, simplesmente segue adiante. E, curiosamente, a cada ano que passa, parece correr ainda mais depressa.
Sua conclusão, de que a certeza maior é seguir, é o que dá ao texto um sopro de esperança. Seguir não significa ausência de medo, mas coragem para atravessar a estrada com ele.
Enriquecendo ainda mais sua reflexão, pode-se dizer que a dúvida é uma bênção disfarçada: ela revela que ainda estamos vivos, atentos, inquietos. É sinal de que não nos acomodamos, de que buscamos sentido e direção. Quem não tem dúvidas talvez já tenha desistido de viver com intensidade.
Assim, seu texto convida o leitor a perceber que as dúvidas não devem ser esmagadas ou evitadas, mas acolhidas como parte da travessia. São elas que nos fazem olhar para os lados, ajustar o retrovisor, acender os faróis e, finalmente, decidir com responsabilidade o próximo passo.
Cida, no fundo, talvez a beleza da vida esteja justamente nisso: não em ter o mapa completo, mas em ousar seguir mesmo sem saber o que nos espera após a próxima curva.
Como sempre, teus comentários são uma obra linda, que iluminam, explicam e engrandecem meu texto . Amei “E até lá, seguimos entre perguntas e silêncios, aprendendo a transformar a incerteza em poesia e a finitude em um convite para amar mais intensamente cada instante”.
Me sinto muito grata por merecer esta análise linda e profunda, que reflete, com exatidão, minha visão sobre o assunto.