
Adoro mergulhar no conhecimento. Há em mim uma ânsia antiga de compreender melhor a mim mesma, os outros, as relações interpessoais e o mundo — esse vasto território de encontros, desencontros e mistérios. Talvez seja essa fome de entender que me levou, recentemente, a começar dois cursos simultaneamente. E foi uma decisão feliz: um alimenta o outro, como duas chamas que se fortalecem mutuamente.
Iniciei um curso de leitura que estou amando. O professor Bryan é daqueles mestres raros: inteligente, dedicado, altamente capacitado e dono de uma comunicação clara e envolvente. Lemos os clássicos, debatemos, refletimos — e até teremos encontros presenciais. Começamos com Sêneca e A Brevidade da Vida. Em breve seguiremos com Fiódor Dostoiévski. Só de pensar, já me entusiasmo.
Paralelamente, iniciei outro curso com Leandro Karnal e Mário Sérgio Cortella, sobre Filosofia da Vida. Um curso profundo, provocador, desses que não nos deixam sair ilesos.
O estudo de Sêneca tem me levado a revisitar minha própria trajetória. Quando ele fala sobre o desperdício do tempo, algo em mim silencia e escuta. Percebo que, desde muito cedo — talvez desde minha segunda infância — eu não conhecia o ócio. Não havia tempo livre, não havia pausa. Eu era quase uma mini executiva: agenda cheia, inglês, piano, teoria e solfejo, balé, escola. Depois vieram os anos de estudo intenso, trabalho, casa, filhos. Sempre ocupada. Sempre responsável. Sempre produtiva.
Mas quase nunca disponível para simplesmente ser.
Não havia tempo para voar, meditar, amadurecer por dentro. Vivia cumprindo tarefas, alcançando metas, resolvendo demandas. Hoje percebo: vivi longos anos no piloto automático. E quando estamos no automático, a vida acontece — mas nem sempre é vivida.
Só depois de me aposentar comecei a experimentar algo novo: tempo. Tempo para estudar filosofia e psicologia com outra profundidade. Tempo para olhar para mim mesma. Tempo para escrever — primeiro timidamente, depois com mais coragem. Demorei para me expor, para assumir minha voz, mas ela estava lá, aguardando.
Curiosamente, estudei filosofia por três anos no clássico. Porém, naquela época, ficamos presos à lógica, aos esquemas, às estruturas formais. Faltou mergulhar nas grandes perguntas, nas inquietações essenciais, no autoconhecimento. Talvez eu também não estivesse pronta.
Hoje entendo que não se trata de lamentar o passado. Cada fase teve seu sentido. Mas é inevitável reconhecer: por muito tempo, confundi viver com produzir.
Agora, ao reler Sêneca, sinto que estou, enfim, aprendendo a habitar meu próprio tempo. E isso, paradoxalmente, me faz sentir que ainda há muito por viver — não em quantidade de anos, mas em qualidade de presença.
Talvez a verdadeira brevidade da vida não esteja na duração, mas na distração. E talvez nunca seja tarde para despertar.

Cida Guimarães
14/02/2026


