
A frase “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional” geralmente é atribuída ao escritor japonês Haruki Murakami, no livro Norwegian Wood (1987). De fato, não há como escapar da dor seja ela física, emocional ou moral. Ela é uma visita constante ao longo de nossa vida, que chega sem pedir licença. Ela atravessa portas, desarma defesas, instala-se no corpo ou na alma. Não perguntamos por ela, e ainda assim, um dia, ela bate à nossa porta, e retorna com insistência em um breve espaço de tempo.
Para o budismo, a dor física e emocional é parte da vida, mas o sofrimento prolongado nasce da nossa resistência e apego.
Sentir dor ao perder alguém é inevitável. Prolongar essa dor indefinidamente, alimentando-a, é opcional. Aí temos uma dor estendida, prolongada, que leva ao sofrimento, que quer instalar-se.
Ele não entra de repente — é convidado. É alimentado pelo apego ao que já não temos, pela insistência em reviver o que passou, pelo medo de soltar.
Sofrimento é quando nos sentamos à mesa com a dor e lhe oferecemos lugar permanente.
A dor ensina. O sofrimento aprisiona. Cabe a nós decidir a quem damos morada.
Entre a dor que nos visita e o sofrimento que escolhemos alimentar, abre-se também a questão do que significa viver com dignidade. É nesse ponto que a filosofia de Kant pode iluminar o sentido de nossa liberdade.
Viver, para Kant, nunca foi apenas existir. Entre o céu estrelado acima de nós e a lei moral que habita o nosso íntimo, abre-se o espaço do humano: criaturas finitas que, ainda assim, são chamadas a agir com dignidade.
A vida não se mede pelos bens que acumulamos nem pelo prazer que perseguimos.
“A dignidade do homem não está no que ele possui, mas no que ele é.”
O que somos, de fato, revela-se quando exercemos nossa liberdade não como capricho, mas como responsabilidade.
Ser livre, para Kant, é escolher segundo a razão, de tal modo que nossas ações possam valer como regra universal. Assim, o viver torna-se um chamado ético:
“Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como fim, nunca simplesmente como meio.”
No encontro com o outro, reconhecemos a grandeza da vida, pois a humanidade não se reduz a instrumento, mas floresce como valor em si. A felicidade, nesse horizonte, não é o destino supremo, mas um ideal da imaginação. Ela pode acompanhar a vida virtuosa, mas não a define.
O que confere sentido é a lei moral, invisível e silenciosa, que pulsa dentro de cada um de nós. Assim, viver é caminhar entre as estrelas e a consciência, entre a vastidão do universo e a intimidade da própria alma.
E se a dor é visitante e o sofrimento é escolha, a dignidade talvez seja o solo onde podemos, ainda e sempre, replantar a esperança.
Cida Guimarães
06/09/25


