
Escrevi sobre fechar ciclos, e agora sinto que uma nova Cida emerge aos poucos. Ainda existem momentos em que a dor me envolve, e eu permito que ela escorra por mim, lavando meus cantos sujos e escuros. Entretanto, há hoje uma espécie de não-urgência: um observar mais atento, um abandonar hábitos e horários rígidos, um deixar a vida simplesmente fluir. Mais presente, mais observadora e, sem dúvida, mais emotiva — talvez porque agora eu saiba, com mais clareza, que tudo é profundamente transitório. Impermanente!
Acredito que vivemos quase vendados diante da única certeza que realmente temos: a impermanência. Tudo muda, tudo se transforma, tudo acaba. Nada permanece igual, nem mesmo por um único instante. Nunca teremos dois momentos idênticos. É triste e bom.
Nada é somente uma coisa. Precisamos sempre descobrir o que há de bom no ruim que nos acontece e vice- versa. Fácil? Óbvio que não. Quando estamos imersos em uma situação, não conseguimos ver o que pode estar nos trazendo de positivo e se tudo está maravilhoso, não vivemos cada instante em sua plenitude. Estamos sempre antecipando o que virá e, nesse movimento, perdemos o que está acontecendo bem diante de nós.
Na maior parte do tempo, não vivemos cada instante em sua plenitude. Estamos sempre antecipando o que virá e, nesse movimento, perdemos o que está acontecendo bem diante de nós. Nem sempre curtimos o suficiente e não enxergamos o quê de negativo pode também estar trazendo.
E talvez seja justamente isso que este novo ciclo me convida a aprender: a habitar o instante, a me permitir sentir sem medo, a acolher o que chega e deixar ir o que precisa partir. Aos poucos, percebo que a vida encontra seus próprios caminhos dentro de mim. E, mesmo entre dores antigas e descobertas recentes, há uma luz suave se abrindo — uma promessa silenciosa de recomeço.
IMPERMANÊNCIA
Sinto teu cheiro.
Ainda posso escutar tuas falas, lembrar teus trejeitos.
Ficou tudo gravado em mim.
Mas já não estás —assim como tantos outros amores
que também deixaram impressa em mim sua maneira de ser, de estar, de viver.
Ficaram marcas, gestos, ecos.
Ficaram também as coisas que curtíamos,
os lugares aonde íamos,
as pessoas com quem convivíamos.
Tudo mudou. Muito se dissolveu.
Algumas coisas acabaram.
Lugares desapareceram. Objetos tornaram-se obsoletos.
O tempo fez seu trabalho silencioso. Saudosismo?
Um pouco, sim. Mas há também a inevitável constatação
da impermanência de tudo e de todos —
essa verdade que dói, mas ensina, que leva,
mas também abre espaço, e nos lembra que viver
é aceitar que nada permanece igual, nem mesmo aquilo que parecia eterno.

Cida Guimarães
13/12/25


