
Construímos muros aos poucos, pedra a pedra, cimento a cimento. No início, buscamos apenas proteção, privacidade, um refúgio. Mas, sem perceber, vamos nos fechando. Criamos lacunas de silêncio, erguemos barreiras para conter sentimentos, bloqueamos os do outro. Quando nos damos conta, já não é mais apenas um muro: é uma muralha feita de silêncio, incompreensão, mágoa e ressentimento.
Essas paredes crescem das nossas inferências, das suposições, das necessidades nunca expressas, das deduções talvez equivocadas. A não comunicação isola. Cria vácuos que ninguém entende. Tornamo-nos ilhas de difícil acesso, inalcançáveis, e assim nos tornamos alvo da imaginação — sempre pronta a pintar cenários absurdos.
São esses muros que afastam pessoas e nações. Dão origem ao desentendimento, à desinformação, a conflitos sem fim. E, no entanto, como seria mais simples se, em vez de nos blindarmos contra a dor, abríssemos frestas ao outro. Se deixássemos acesso aos nossos sentimentos, se partilhássemos sofrimentos, se buscássemos o entendimento.
Porque, quando o muro endurece e se torna muralha, o diálogo já encontra portões selados. Tentativas de aproximação são repelidas e sobra apenas a dor, o ressentimento, a incompreensão. Então, tudo parece terra de ninguém.
Mas talvez ainda reste uma escolha. Se, antes que o muro se feche por completo, tivermos a coragem de abrir uma pequena brecha, uma rachadura de sinceridade, a luz poderá atravessar. E quem sabe, dessa fenda, brote a ponte que nos devolve ao outro.
Muros?
Por que o muro?
Tão mais lindos
são os espaços de abertura,
de troca, de compreensão.
Não te feches ao outro,
escuta outra visão,
busca entender,
comunica tua dor —
mas não te feches
à comunicação.
Muros isolam.
E quando isolam,
te roubam a razão.
Cida Guimarâes
05/09/25


