
“O homem é cruel sobretudo em relação ao homem, porque somos os únicos capazes de humilhar, de torturar e fazemos isto com uma coisa que deveria ser o contrário, que é a razão humana.” José Saramago
Seremos, de fato, racionais e senhores de nós?
Conseguimos domar nossos sonhos, impulsos, medos, traumas e manias —ou somos apenas levados por eles, como folhas ao vento das próprias paixões?
Assistimos, atônitos, a tantos horrores — e então nos perguntamos: por que tanta crueldade, tanta indiferença? Seriam explosões momentâneas de quem não suportou o próprio abismo?Ou sinais de algo mais profundo — falhas da alma, desvios de humanidade?
É tênue a linha que separa a loucura da maldade, um instante de descontrole de um gesto frio e consciente. Existem mesmo seres inteiramente maus, sem sombra de remorso?
É terrível pensar que um ser humano possa se tornar mais irracional que o animal que mata apenas por instinto.
E, ainda assim, talvez ser humano seja justamente isso: habitar um campo de batalha invisível, onde convivem luz e sombra, amor e destruição. Talvez o domínio sobre si não consista em vencer o caos,mas em reconhecê-lo — e, mesmo assim, escolher o bem.
Porque a grandeza não está em sermos perfeitos, mas em permanecermos sensíveis, em continuar acreditando na ternura, em reerguer o que dentro de nós parecia perdido. E é nessa tentativa — frágil, mas luminosa — que a nossa humanidade encontra sentido e repouso.
Cida Guimarães
17/20/25


