
Ando numa fase de resgatar memórias. Hoje me peguei lembrando de uma tia que faleceu quando eu tinha por volta dos dez anos. Lembro da cena como se fosse hoje. É incrível como certos acontecimentos ficam impressos em nós, como fotografias que o tempo não desbota.
Seu nome era Erotildes, mas todos a chamavam de Tida. Para mim, era “a tia louca”. Cresci ouvindo que, quando eu tinha minhas explosões — choros intensos, rompantes de teimosia — alguém logo sentenciava: “Vai ficar louca que nem a tia.” Nunca entendi bem o que aquilo significava.
Pelo que recordo das conversas sussurradas dos adultos, tudo começou com uma desilusão amorosa. Foi depois disso que os sintomas se intensificaram. Naquela época, havia muita ignorância sobre transtornos mentais. Os tratamentos eram duros: choques, isolamento, contenção. Primeiro ficou em casa. Depois, diante das dificuldades e do medo, foi levada a diferentes instituições, até terminar no hospital psiquiátrico.
Minha mãe a visitava semanalmente. Levava comida, roupas, pequenos cuidados. Muitas vezes as coisas desapareciam. Muitas vezes o estado dela piorava. Eu nunca fui levada. Minha mãe dizia que não era lugar para criança.
Só a vi uma vez. No dia de sua morte.
Não lembro se disseram que estava mal ou se já havia falecido quando chegamos. Lembro apenas da cena: uma mulher magra caída no chão de uma cela escura. A luz era pouca. O ar parecia pesado. Havia uma mistura de tristeza e horror que me atravessou inteira.
Disseram que fora pneumonia. Mas, para mim, parecia que era abandono.
Durante anos, aquela imagem ficou guardada como algo proibido de revisitar. Hoje, ao tocar nessa lembrança, a pergunta que me acompanha é outra: Qual o limiar entre a loucura e a sanidade? Não carregamos todos pequenas fissuras invisíveis?
Somos frágeis diante das próprias emoções. Hoje compreendemos melhor os transtornos mentais. Já não se fala em “loucura” com a mesma facilidade cruel. Ainda há falhas, ainda há dor — mas há também mais escuta, mais ciência, mais humanidade.
Penso na tia Tida.
Talvez ela não fosse louca. Talvez estivesse ferida demais para o tempo em que viveu. Talvez tenha sido apenas uma alma sensível num mundo que não sabia acolher excessos de sentir. E então percebo algo que antes me escapava: não herdei a loucura que me ameaçavam. Herdei a consciência. Herdei a possibilidade de olhar para minhas próprias sombras sem medo. Herdei a chance de buscar ajuda, de falar, de compreender.
Se há um limiar, ele não é um abismo — é uma linha móvel, frágil, humana.
E hoje sabemos construir pontes sobre ela. Aquela cela escura ainda existe na minha memória. Mas agora, quando a revisito, já não vejo apenas horror. Vejo também o quanto avançamos. Vejo o quanto podemos cuidar melhor uns dos outros. E sinto que, se há algo que realmente atravessa gerações, não é a loucura —é a capacidade de transformar dor em compreensão.
E disso, talvez, nasça uma forma mais suave de sanidade. 🌿✨
Cida Guimarães
25/02/2026


