
O dia em que meu pai parou de dirigir
Este é mais um episódio que ficou gravado na minha memória. Acredito que tenha sido por volta de 1960 ou 1961. Meu pai, na época, tinha um Mercury azul — lembro bem daquele carro. Acredito que era ano 51… não tenho certeza. Claro, não é o da foto, mas era azul.
Na realidade, meu pai não poderia ter carteira de motorista. Enxergava apenas com um olho: havia perdido a visão do esquerdo por causa de um glaucoma. Ainda assim, dirigia. Ouvi dizer, mais tarde, que teria comprado a habilitação. Verdade ou não, quem mais usava o carro eram meus dois irmãos, ainda solteiros.
Eu também arriscava algumas voltinhas em Capão da Canoa. Tinha aprendido com meu irmão Zeca, e minha mãe deixava que fôssemos até o clube. Outros tempos, outras permissões.
Em uma de nossas muitas viagens a Encantado, onde morava meu irmão mais velho,
Laerthe, meu pai resolveu dirigir. Eu sempre morria de medo quando ele estava ao volante. Curiosamente, continuo sendo uma péssima acompanhante até hoje.
Lembro que a estrada, naquela época, era de terra — enlameada, escorregadia, perigosa quando chovia. Nessa ocasião, meu pai viajava apenas com meu irmão Cláudio. Ao chegar a uma ponte, não sabemos ao certo o que aconteceu, mas o carro foi parar do outro lado do barranco, dentro de um riacho fundo. Meu pai dizia que a barra da direção quebrou; meu irmão, que o pai não viu a ponte.
Ali, meu pai se virou para o Cláudio e disse, com uma calma que só hoje consigo compreender:
— Tira o carro daqui, Cláudio.
Foi preciso chamar o guincho. A sorte — ou talvez o milagre — é que ninguém se machucou. Apenas o carro. Desde então, meu pai nunca mais dirigiu.
Talvez certas histórias permaneçam porque nelas algo se rompe — não apenas uma peça do carro, mas uma confiança, uma era, um papel. A memória não guarda tudo; ela escolhe. E escolhe, quase sempre, os instantes em que a vida muda de rumo sem aviso, como numa estrada de terra, depois da chuva.
Cida Guimarães
10/02/2026


