
“Aonde quer que você vá, é você que está lá.”
Profeta Zen.

A frase é simples, quase óbvia — e, ainda assim, profundamente desconcertante. Porque desmonta, com delicadeza, uma das nossas maiores ilusões: a de que a paz mora em outro lugar. Vivemos projetando.
Acreditamos que a felicidade está na próxima conquista, no próximo amor, na próxima versão de nós mesmos. Sempre um pouco adiante, um pouco além.
Como se a vida verdadeira estivesse prestes a começar — mas nunca exatamente aqui. E assim, o presente se torna insuficiente. Não olhamos para o que temos, mas para o que falta. Criamos expectativas que a realidade, inevitavelmente, não consegue sustentar. E nos frustramos. Repetidamente. Como se o erro estivesse na vida — e não na régua com a qual a medimos. Mas, afinal, existe mesmo essa tal perfeição?
O desejo, é claro, nos move. Ele é impulso, é chama, é construção. Mas quando deixa de ser força e passa a ser tirano, nos aprisiona. E nos vemos girando em um ciclo silencioso de insatisfação — sempre buscando, raramente encontrando, quase nunca reconhecendo.
Foi então que me deparei com uma ideia antiga, quase provocativa: amar o próprio destino. Não apenas aceitá-lo, mas acolhê-lo — com tudo o que traz, inclusive o que fere, o que limita, o que escapa ao controle. Aceitar o que não pode ser mudado. Adaptar-se ao que insiste em ser. E, ainda assim, avançar. Não com resignação amarga, mas com uma espécie de lucidez serena.
Talvez seja isso: um olhar mais honesto sobre a vida. Um certo ceticismo saudável — não o que nega, mas o que observa. O que distingue, o que não se ilude facilmente. Porque tudo carrega em si uma ambiguidade.
Há beleza no que parece imperfeito. Há sombra no que se apresenta como luz. E nós, no meio disso tudo, tentando escolher onde pousar o olhar.
O problema não está na existência da dualidade — mas na nossa recusa em aceitá-la. Queremos o todo sem fissuras, a alegria sem intervalo, o amor sem risco. Queremos um mundo polido, quando somos, nós mesmos, matéria inacabada. Talvez seja por isso que sofremos tanto: exigimos da vida uma completude que nem nós possuímos. E, no entanto, há algo de profundamente libertador em reconhecer isso.
Talvez a paz não esteja em encontrar o lugar ideal, mas em habitar, com mais inteireza, o lugar em que já estamos. Talvez não se trate de corrigir tudo, mas de acolher — com menos dureza — aquilo que ainda está por se tornar. E, quem sabe, nesse gesto silencioso de aceitação, a vida deixe de ser aquilo que falta e comece, enfim, a ser aquilo que é.
DUALIDADE
Não é longe que a vida começa, nem depois que tudo se ajeita.
Ela pulsa aqui —no imperfeito, no incompleto, no que ainda hesita.
Carregamos ausências nos bolsos, e sonhos nos olhos cansados,
mas há um instante inteiro pedindo para ser habitado.
Não há forma definitiva, nem caminho sem desvio —
somos traço em construção, somos margem, somos rio.
E talvez, sem perceber, entre o querer e o aceitar, a gente encontre,
em silêncio, um jeito mais leve de estar. 🌿
Cida Guimarães
21/03/2026


