
Homens e mulheres vivem em busca de um ser perfeito, idealizado, que se encaixe em uma lista de qualidades físicas e de personalidade. Frustração garantida para ambos: elaboram longas listas de atitudes desejadas e de outras consideradas inaceitáveis — como se o encontro verdadeiro pudesse caber em critérios tão estreitos.
Minha modesta conclusão é que, independentemente do sexo, somos todos falhos, cheios de vazios e arestas, aprendizes da própria vida. Somos humanos, portanto imperfeitos — e, quando nos lançamos à busca de um ideal de perfeição, o que costuma nos esperar ao final é apenas frustração.
Ainda assim, acredito, com igual força, que os encontros que atravessam o nosso caminho não são por acaso: chegam para nos ensinar, lapidar, provocar mudanças suaves ou profundas. São espelhos que nos revelam, mãos que nos impulsionam, presenças que nos fazem crescer como gente. Mas afinal… quem é o outro?

Um reflexo nosso, que tenta se encaixar no que reconhecemos?
Ou um enigma vivo — um ser silencioso que guarda tempestades e calmarias num território da alma ao qual jamais teremos mapa?
O que o move? Medos antigos, sonhos secretos, feridas escondidas?
E por que, às vezes, cala, como se a própria voz fosse um risco?
Conhecemos realmente esse ser… ou ele é quase estrangeiro, quase distante, quase de outro mundo?
Talvez o outro seja sempre uma caixa de possibilidades: nele cabem luz e sombra, promessa e susto, ternura e abismo. Ele nos surpreende — assim como nós também o surpreendemos.
E, mesmo assim, seguimos tentando decifrá-lo, mesmo sabendo que nunca o veremos por inteiro.
Porque é árduo aceitar o que não compreendemos —esse modo tão próprio que o outro tem de sentir, de querer, de existir. Mas talvez a pergunta não seja como entender, e sim como aproximar sem invadir, como tocar sem ferir, como permitir que dois mundos tão diferentes encontrem ainda assim uma ponte, uma fresta, um pequeno lugar onde a conexão acontece — viva, frágil e possível.
E, quando acolhemos isso, percebemos que a vida não exige perfeição. Exige apenas abertura para sentir, para aprender e para seguir adiante —um pouco mais inteiros, um pouco mais humanos, e talvez um pouco mais próximos uns dos outros.
Cida Guimarães
17/11/25


