
Vivemos tempos em que a verdade parece ter perdido o RG. As palavras circulam, as imagens se multiplicam, as certezas escorrem pelos dedos — e, ainda assim, seguimos conectados.
Ou melhor, aparentando conexão.
Nesse mundo virtual, onde a inteligência é artificial e a emoção é muitas vezes encenada, nos agarramos a aparências como quem busca terra firme no meio de um mar de filtros. Curtimos, compartilhamos, reagimos. Mas será que sentimos de verdade? Será que acreditamos no que vemos? Ou já nem sabemos mais onde a verdade começa e a mentira termina?
Fiquei pensando nisso outro dia, enquanto navegava sem rumo entre telas e notícias. Tudo tão polido, tão pensado, tão perfeitamente montado… que começou a me inquietar. Como distinguir o verdadeiro do forjado? Como identificar a sinceridade em um sorriso virtual ou numa frase ensaiada? A mentira hoje não usa mais nariz de Pinóquio — ela se mascara de likes, de discursos prontos, de imagens editadas em tempo real.
E nós? Como ficamos? Defensivos. Receosos. Desconfiados de tudo e de todos. Com medo de confiar e sermos ludibriados. Com medo de entregar o que há de mais real em nós a um mundo que pode simplesmente deletar.
Foi dessa inquietação que nasceu um poema, uma tentativa de dar forma às minhas indagações. Palavras tentando tatear o que os olhos já não conseguem distinguir.
Porque no fundo, a pergunta não é só sobre o que é real — mas sobre como permanecermos reais nós mesmos. Como continuar verdadeiros quando tudo ao redor nos empurra para a performance, o disfarce, a ilusão.
E você? Como lida com a mentira? A detecta no olhar? Na hesitação? Ou prefere não perguntar demais, por receio do que pode descobrir?
Verdades e Mentiras
Onde começa uma, e onde se esconde a outra?
Será a minha verdade… ou aquela que chamam de universal?
É o que sinto, o que vejo, ou o que desejo que seja real?
Será que a minha alma pinta distorções e eu as abraço como se fossem certezas?
A linha é tão fina… Basta uma palavra — e tudo muda de cor. Às vezes me pergunto:
é a verdade que se desfaz em sombras ou sou eu que vejo espelhos onde há janelas?
O que conto, o que calo, o que choro em silêncio…
será mesmo fiel ao que é? Ou apenas ao que, em mim, precisa parecer verdade?
Cida Guimarâes
16/07/25


