
Do Ver-o-Peso ao Banzeiro
Saí no dia 10 de setembro rumo a Belém. Cheguei às 13h20, mas o check-in no hotel só começava às 15h. Ou seja: tive uma hora e quarenta minutos para começar a descobrir Belém antes mesmo de descobrir onde iria dormir. Nada mal. Fiquei hospedada no Mercure Belém Boulevard e, depois de deixar as malas, saí para explorar a cidade.

E Belém já começou me recebendo com uma pergunta: Você veio preparada para comer?
Eu, modestamente, respondi que sim. Entre as primeiras experiências gastronômicas apareceram os sabores amazônicos, e logo percebi que aquela viagem teria um forte componente, a culinária. Eu não queria criar expectativas. Belém, entretanto, foi, aos poucos, criando as suas próprias.
Fui ao Cuia Amazônica e comi Vatapá na cuia. Todos os pratos vem na cuia acompanhados de Açaí e farinha de mandioca e tapioca. Você escolhe o que adicionar. Você coloca a farinha ou tapioca no Açaí e come junto com a proteína. Há uma planta que produz as cuias que depois são artesanalmente pintadas.

A cidade, fundada em 1616, carrega uma mistura fascinante de herança indígena, portuguesa e africana. É conhecida como Cidade das Mangueiras e parece ter uma relação tão íntima com a floresta que, em alguns momentos, dá a impressão de que a natureza simplesmente entrou na cidade sem pedir licença.


Passeei pelo Ver-o-Peso, pela Estação das Docas, pelo complexo Feliz Lusitânia, pelo Forte do Presépio, pela Casa das Onze Janelas, pelo Mangal das Garças e pela Basílica de Nazaré. E ainda conheci a Ilha do Combú. Casas sobre palafitas, restaurante olhando o rio. Lugar encantado. Você escolhe sua experíência: produção de chocolate, Açaí, outros…
No Combú, descobri o cacau de perto: a árvore, a flor, a polinização, a colheita, o preparo e, finalmente, a degustação. Confesso que, nessa última etapa, fui uma aluna extremamente aplicada. E então começaram os nomes que pareciam ter saído de um livro de magia: tacacá, tucupi, jambu, maniçoba, filhote, pirarucu, cupuaçu, bacuri…ah conheci, também a rainha da selva, a árvore gigante: a Samaúma, e não há como não reverenciar sua beleza e grandeza.



O tacacá veio quente. Muito quente. E ainda tinha o jambu, aquela erva que faz a boca formigar e que, aparentemente, a culinária paraense decidiu transformar em entretenimento. Depois veio a maniçoba, uma espécie de feijoada amazônica preparada com folhas de mandioca cozidas durante 8 dias.
Comecei a pensar que, na Amazônia, até o almoço precisava de planejamento estratégico. E, quando parecia que eu já havia conhecido todas as possibilidades, apareceu a Sorveteria Cairú.
Cupuaçu. Tapioca. Castanha-do-Pará. Carimbó. Belém definitivamente sabe como convencer uma pessoa. Ah, e Carimbó. Dança que mexe com todos nossos músculos e também, com nossa disposição. Ralamos, colhemos e compartilhamos a colheita nesta interação de alegria e parceria.
De Belém a Marajó

Também conheci Marajó. E foi impossível não perceber como a paisagem, os costumes e a relação das pessoas com a natureza iam mudando. O Pará foi me mostrando que “Amazônia” não era uma coisa só. É cidade, ilha. rio, floresta, mercado, comida, cultura, gente. E eu ainda estava só começando. Dos mangais, igarapés, da fazenda São Domingos, com seus búfalos, com os quais nadei e cavalguei e me apaixonei pelo Xodó com quem percorri 3.0 kms. Experiência incrível e inesquecível! Isto para não falar de seu artesanato lindo, Marajoara.


Fui a Joanes, com seu sítio arqueológico e ruínas; Salvaterra e fiquei em Soure, no hotel Ilha de Marajó. Entre os dias 10 e 17, fui conhecendo diferentes faces do Pará. Belém me mostrou seus casarões, suas mangueiras, seus mercados, seus igarapés, suas cores e seus sabores. Também fui à fazenda São Domingos onde nadei e cavalguei com búfalos. Foi maravilhoso! O meu era o Xodó, mas temperamental, escolhia seu caminho.


17 de setembro — Manaus

No dia 17, deixei o Pará e segui para Manaus. Manaus foi outra história. Cidade grande, quente, úmida, intensa e cercada por uma floresta que parecia estar sempre lembrando à cidade quem havia chegado primeiro. O clima, equatorial. Traduzindo para o meu idioma: calor. Muito calor.
Manaus havia crescido com o dinheiro do ciclo da borracha e ganhado o apelido de Paris dos Trópicos. E lá estava o Teatro Amazonas, construído no final do século XIX, quando a cidade vivia seu período de grande riqueza. O teatro impressionou. Bonito, imponente e cheio de história. Também fui ao mirante. centro histórico, e mercado municipal.

Fiquei imaginando a Manaus daquela época: vestidos longos, homens de terno, óperas, luxo… Enquanto isso, eu estava ali tentando sobreviver ao calor. A história tem dessas ironias.
Rio Negro, Solimões e o Encontro das Águas

Manaus também é a cidade dos grandes rios. E então veio o Encontro das Águas. De um lado, o Rio Negro. Do outro, o Solimões. Águas de cores. temperaturas e altitudes diferentes correndo lado a lado por quilômetros. sem se misturar.
A natureza, mais uma vez, mostrando que não precisa de efeitos especiais. Cor, temperatura, profundidade distintas e habitam o mesmo espaço sem problemas. Como temos a aprender com a natureza!
Depois vieram os passeios de barco, as canoas, os igapós, as comunidades e os botos. A Amazônia começava a ficar cada vez mais parecida com uma história fantástica.
E então veio o Juma


Um lodge no meio da floresta. Sete mil hectares. Para colocar em perspectiva: aproximadamente 70 km² de floresta. É floresta para perder a conta. E, felizmente, para perder também um pouco a conexão com o mundo. Ali não havia trânsito. Não havia televisão. Não havia loja para aquela compra de emergência que ninguém sabia qual era. A energia vinha do sol. A internet aparecia em alguns pontos — quase como uma aparição religiosa. E a natureza ocupava praticamente todos os espaços. A sensação era de estar dentro da floresta, e não simplesmente visitando uma floresta. No café da manhã, uma especiaria: X cabloquinho (tapioca recheada com banana, queijo e tucuman) Delícia!

Vieram mais botos. Mais pesca. Mais rio. Mais banzeiro. Mais aldeia. Mais peixe. Mais histórias. Mais floresta.


Caminhamos no meio da floresta parando para identificar seringueiras, castanheiras, e tantas outras mais. Pegamos um barco. Depois, canoas. E lá fomos nós remar. Neto foi comigo. Remamos, nadamos, paramos à sombra dos botes e, em algum momento, a atividade ganhou aquela característica típica de viagem em grupo: ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, mas estava todo mundo se divertindo. Pescamos piranhas e no grupo de doze somente eu e mais dois participantes fomos agraciados em pescar lindas e perigosas piranhas.
Voltamos para o lodge, exaustos e felizes. Depois, apareceu uma Cuba Libre. E uma piscina. Maravilhoso!
O almoço foi churrasco. Porque, aparentemente, mesmo no coração da Amazônia, o brasileiro consegue encontrar uma maneira de fazer churrasco. À tarde, fomos a uma aldeia. E foi aí que a viagem ganhou outra dimensão.
A aldeia Tuiuca


Conhecemos uma comunidade indígena Tuiuca. E ali conhecemos costumes, desenhos, alimentos e histórias. Uma índia, muito habilidosa, desenhava onde quiséssemos sinais feitos com carvão e urucum, com diferentes simbolismos e foi lindo ver muitos dos grupos com suas caras pintadas em preto e vermelho significando proteção, força. etc… Depois houve danças ao som de diferentes instrumentos.
Havia peixe moqueado e assado. Havia farinha de peixe. Havia palavras, gestos, rituais e uma relação com a floresta que não cabia facilmente em uma fotografia. Foi uma experiência que me fez perceber como é limitada a nossa ideia de “conhecer” um lugar. Às vezes pensamos que conhecer é fotografar.
Ali, conhecer era observar. Escutar. Experimentar. E tentar compreender.
Banzeiro
Na Amazônia, aprendi uma palavra que passou a fazer parte do meu vocabulário: banzeiro. É quando o rio resolve lembrar que não é uma piscina. A travessia ficava difícil. O barco subia. Descia. Balançava. E eu começava a negociar internamente com todas as decisões que havia tomado até chegar ali.
Mas chegava. E, quando chegava, parecia que tudo havia valido a pena.
Presidente Figueiredo
AS CACHOEIRAS E CAVERNAS


Fomos a Presidente Figueiredo, conhecida por suas cachoeiras e cavernas, e pela produção de cupuaçu.
A seca estava forte, e algumas cachoeiras estavam com pouca água.Mesmo assim, conseguimos visitar três: Iracema, Asframa, Translúcida.
Iracema é linda. A Asframa também. Na Translúcida, além da cachoeira, veio o almoço: tambaqui assado na brasa. E ali percebi uma regra não escrita da Amazônia: se houver um peixe por perto, provavelmente ele vai acabar na churrasqueira.
A Caverna Refúgio do Maroaga estava fechada para manutenção. Ficou para a próxima. Ou talvez a Amazônia tenha simplesmente decidido que eu já havia recebido aventuras suficientes naquele dia.
O único item que não estava previsto no orçamento foi uma espécie de esponja de água doce. Resultado: muita coceira. A floresta também cobra sua taxa de visitação.
Amazônia sem filtro

Teve também Piranduba, um braço do Solimões que encontra o Rio Negro. E houve o pirarucu. Bah, pesquei um enorme. Quase não consegui. E o tambaqui. E tantos outros nomes que, a essa altura, minha memória já precisa de um caderno de apoio. Ah, o Filhote que pelo nome parece um peixinho é enorme. Aos poucos, aquela Amazônia que eu imaginava antes da viagem foi desaparecendo.
Porque a realidade é muito mais complexa. Belém não é apenas uma cidade amazônica. Manaus não é apenas a porta da floresta. E a floresta não é, simplesmente, aquela imagem verde que eu tinha na cabeça. É cheiro, calor, umidade, barulho, silêncio, peixe, fruta, rio, gente, história. E uma quantidade impressionante de nomes que eu provavelmente nunca conseguirei repetir sem consultar minhas anotações.
O Teatro, os bois e a floresta
Voltei mentalmente ao Teatro Amazonas. Aquele teatro que nasceu no auge do ciclo da borracha, quando Manaus era chamada de Paris dos Trópicos. Depois pensei em Parintins. Garantido e Caprichoso. Dois bois. Duas cores. Duas torcidas. Uma festa que transforma tradição, música, dança e identidade em espetáculo. E pensei que talvez a Amazônia seja exatamente isso: um lugar onde tudo parece maior do que imaginámos. Os rios. As árvores. As distâncias. As histórias. Os sabores. As festas. E até os nomes.
24 de setembro — De volta
No dia 24, a viagem chegou ao fim. Voltei para casa depois de duas semanas em que passei por cidades, ilhas, rios, floresta, comunidades, cachoeiras, mercados, barcos, canoas e incontáveis experiências gastronômicas. Quando saí de casa, tinha algumas expectativas. Depois de alguns dias, percebi que expectativas são perigosas. A gente chega imaginando uma coisa e encontra outra.
Às vezes melhor. Às vezes mais difícil. Às vezes mais engraçada. E, algumas vezes, tudo ao mesmo tempo. Belém me surpreendeu. Muito. Eu não esperava gostar tanto. Gostei das cores, dos casarões, das mangueiras, dos igarapés, das palafitas, dos mercados, das frutas, dos temperos, das lendas, da música, da comida e, principalmente, das pessoas.
O Pará me mostrou uma Amazônia cultural, histórica, gastronômica e profundamente ligada às suas raízes.
Manaus me mostrou uma cidade enorme convivendo com uma floresta gigantesca praticamente à sua porta. E o Juma me ensinou que ficar alguns dias sem trânsito, televisão, lojas e internet pode parecer uma ideia maravilhosa… até você perceber que realmente está sem internet. Depois você se acostuma. E descobre que talvez não estivesse fazendo tanta falta assim.
A Amazônia foi ficando dentro de mim aos poucos.
No sabor do açaí. No jambu que adormecia a boca. No tucupi. No cheiro da mata. No barulho do rio. No banzeiro. No boto aparecendo na água. No peixe assado. No urucum. Nas histórias indígenas. Nas árvores gigantes. E, principalmente, na sensação de ter entrado em um lugar que eu imaginava conhecer apenas de ouvir falar. No fim, descobri que a Amazônia não era um lugar para ser simplesmente visitado. Era um lugar para ser vivido. Mesmo que, de vez em quando, ela cobrasse uma pequena taxa extra em forma de coceira, banzeiro e ausência de Wi-Fi.
Viagem inesquecível!
Cida Guimarães
30/09/26


