

“Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”. Frederico Garcia Lorca.
Hoje, na minha caminhada de sempre pela praia, fiquei observando os morros, o mar as baleias que, de vez em quando, deixavam aparecer a cauda e um jato d’água. Pescadores puxando suas redes e cardumes de taínhas.
Foi aí que pensei na maravilha e no mistério que existe em tudo ao nosso redor.
Nessas horas, minha imaginação se solta e a inspiração vem: pensamentos espalhados, frases que depois acabam virando poemas — nem sempre certinhos, mas sempre de coração.
A natureza me fascina. Ela me nutre, me reconstrói, me emociona. Traz lembranças bonitas e, ao mesmo tempo, me faz sentir mais perto do divino. É nesse encontro com a natureza que consigo falar com Deus, ouvir meu próprio coração e me sentir inteira.
Mistérios são como véus: encobrem, mas ao mesmo tempo revelam. Há neles uma força silenciosa que nos convida a contemplar sem pressa, a aceitar que nem tudo precisa de resposta.
O mistério está no movimento do mar, que nunca se repete, na noite estrelada que desperta perguntas sem fim, no olhar que guarda histórias não ditas, nas conexões surpreendentes, no amor que nasce sem explicação.
Eles nos lembram que a vida não é apenas feita de certezas, mas também de enigmas que sustentam nossa curiosidade, nossa fé e nossa poesia. Sem mistério, o mundo seria previsível demais; é o não sabido que nos move, que nos faz buscar, que nos dá a sensação de estar vivos.
O mistério não é falta, é abundância. É como se Deus tivesse deixado frestas abertas para que, ao espiar por elas, sentíssemos a grandeza do invisível e o infinito dentro de nós mesmos.
Mistérios
Deus, o amor, o universo,
o ser humano, a vida, a morte,
um olhar, um sorriso —tudo é mistério, enigma
—inexplicável, adorável, abominável,
abrangendo todos os sentimentos
numa paleta infinita de cores e graus inimagináveis.
Passamos a vida tentando decifrar, reter, esquecer, compreender…
quando talvez fosse melhor apenas aceitar nossa pequenez,
viver, e nos maravilhar com todo esse mistério.
Pois é nele que reside a beleza de existir.
Cida Guimarães
28/08/25



Cida, seu texto é de uma riqueza sensível e profunda, porque costura a experiência cotidiana, sua caminhada pela praia, os pescadores, as taínhas, o mar e até as baleias que surgem como espetáculo divino, com uma reflexão filosófica e espiritual.
No cabeçalho, você traz o cenário: a praia como espaço de contemplação e encontro com a natureza. A descrição não é apenas visual, mas emocional. O simples ato de observar se transforma em revelação, em porta aberta para o mistério. Esse início já deixa claro que a inspiração nasce do contato com o real, com aquilo que seus olhos veem e sua alma interpreta.
A partir daí, o texto se expande para reflexões que ultrapassam o momento vivido: a natureza como força que nutre, reconstrói e aproxima do divino. Há uma espiritualidade silenciosa em cada frase, onde Deus não aparece de forma dogmática, mas como presença sutil, revelada no mar, nas estrelas, nos olhares e no amor.
A ideia do mistério como véu é lindíssima, porque dá ao leitor a sensação de algo que ao mesmo tempo esconde e revela, exatamente como a vida. Você mostra que o mistério não é vazio, mas plenitude; não é ausência, mas abundância. Ele é o motor da fé, da curiosidade e da poesia.
A parte poética em versos amplia o que foi refletido antes em prosa:
Você enumera os grandes enigmas da existência, Deus, amor, universo, vida, morte, sentimentos humanos, e mostra que todos se entrelaçam numa teia que nunca seremos capazes de decifrar totalmente.
O reconhecimento da pequenez humana diante da imensidão é o que dá força ao texto, porque, em vez de soar como fraqueza, aparece como convite à humildade e à contemplação.
Por fim, a sua conclusão é quase um sopro estóico e espiritual: não precisamos controlar nem entender tudo, mas aceitar, viver e se maravilhar. É nessa aceitação que mora a verdadeira beleza da existência.
Em resumo:
Seu texto une poesia, espiritualidade e filosofia de um jeito natural. O cabeçalho mostra a experiência real que serviu de gatilho; a prosa reflete e amplia; e os versos finalizam como síntese poética. Ele fala de vida, de fé, de Deus, da natureza, da fragilidade humana e, sobretudo, do valor do mistério, não como problema, mas como presente.
Não tenho palavras para agradecer a belíssima análise e interpretação de meu texto. Me comovem tua sensibilidade e capacidade de captar tudo que tentei expressar.
Teus comentários são sempre enriquecedores. Lindos presentes. Gratidão!