
Hoje é um daqueles dias ligeiramente sombrios, em que a nostalgia bate à porta com passos firmes. Tento espantá-la com tarefas diversas, mas ela é teimosa: insiste em me arrastar para tempos distantes, quando eu fui tantas outras —e vivi histórias que, agora, me surpreendem, assustam e me convidam a meditar sobre razões que ainda não compreendo.
Não é desejo de permanecer no passado —e sei que ficar presa lá não seria bom. Na maior parte do tempo, sigo leve, adiante. Mas há momentos em que as lembranças chegam fortes demais para ignorar; então as acolho, deixo que falem, e tento entendê-las — ou simplesmente escutá-las —para delas tirar alguma lição.
Acredito que a vida nos pede isso: aprender com o que fomos, para não repetir os mesmos erros e transformar experiências em matéria viva para as novas fases que chegam.
Percebo hoje um fio que costura todas as minhas versões: a menina, a adolescente, a jovem adulta, a adulta, a madura — e essa que chamam de idosa, palavra que não me serve. Não me sinto velha, apenas avançada em anos e ainda jovem de espírito.
Em cada fase, havia uma mesma busca: o desejo de afirmação, de expressão, de me reconhecer no espelho do mundo. Primeiro, veio a música com a dança, o piano; depois, o ensino; hoje, a escrita. Todas essas formas foram caminhos para chegar mais perto de mim, abrir janelas internas e, ao mesmo tempo, encontrar o outro.
E assim sigo, com o passado como mestre — não como prisão —e o presente como campo fértil onde planto o que aprendi dos meus antigos passos. Continuo a me reinventar, a descobrir quem sou nas camadas que se revelam, nas palavras que escrevo e nos encontros que ainda virão.
Se o tempo é rio, eu caminho às margens com curiosidade, sabendo que cada lembrança pode ser porto, correnteza, ou apenas brisa que passa. O importante é que sigo — avançada em anos, sim —mas ainda profundamente viva e inquieta de espírito, ainda em busca da melhor versão de mim mesma.
Cida Guimarães
07/11/25


