
Nossa vida é feita de encontros e desencontros. Alguns passam quase despercebidos; outros deixam marcas, despertam sentimentos e se transformam em lembranças — bonitas, difíceis, divertidas, complicadas ou simplesmente memoráveis. Há aquelas que fazemos questão de guardar e outras que, com o tempo, preferimos deixar pelo caminho.
Na minha recente viagem ao Amazonas, tive vários encontros. Alguns breves, outros bastante significativos. Talvez resida aí uma das grandes vantagens de viajar sozinha: ficamos mais disponíveis para o outro, mais abertas às experiências e, sobretudo, menos protegidas pela confortável bolha que costumamos construir quando viajamos acompanhadas.
No Juma, nosso guia era o Neto. Formado em Letras, poliglota, profundo conhecedor da região e experiente na condução de grupos, ele tinha o talento de transformar cada excursão em uma mistura de aula, aventura e entretenimento. Sempre havia alguma informação interessante, uma curiosidade sobre a fauna, a flora, os costumes locais ou os alimentos da região. E, para completar, nunca faltava uma piada. Afinal, conhecimento e bom humor podem — e devem — caminhar juntos.

As refeições no restaurante do lodge também faziam parte dessa experiência. As mesas eram organizadas por grupos, e o guia costumava sentar-se com os seus viajantes. Entre uma garfada e outra, aprendíamos sobre frutas, ingredientes, hábitos alimentares e peculiaridades da Amazônia. Uma espécie de sala de aula sem quadro-negro, com direito a paisagens e sabores exóticos.
Meu grupo ( 12) era bastante heterogêneo e foi mudando ao longo da minha permanência. Algumas pessoas chegaram, outras partiram, mas houve quem permanecesse na memória. Entre elas, um casal de mineiros, Vivi e Eder (abaixo). Casal jovem: dinâmicos, simpáticos e gentis.

Nossas conversas durante as refeições eram sempre agradáveis. Trocávamos impressões sobre os passeios, as descobertas e as experiências, naquela espontaneidade que torna tão gostosos os encontros inesperados. Enfim, queridíssimos! Foi um prazer trocar ideias e experiências com eles.
Vão ficar na lembrança.
Também conheci duas outras mulheres que, como eu, viajavam sozinhas.
As mulheres-solo: Eu, uma mexicana, que não fazia parte do meu grupo, Cristina, e Rita, uma francesa da Normandia. Três mulheres bastante diferentes, mas com algo importante em comum: a independência, a disposição para descobrir o mundo e o prazer de viajar.

A mexicana era charmosa, elegante e, como eu, bastante independente. Rita tinha um jeito mais reservado, talvez um pouco marcado pelas experiências da vida. Vestia invariavelmente calça comprida, jaqueta de gabardine, camisa de mangas longas e, às vezes, até máscara! Tudo isso sob um calor amazônico de 37 graus! Confesso que me perguntava como conseguia suportar tantas camadas de roupa naquele verdadeiro forno tropical.
Rita insistia em falar francês, embora também se comunicasse razoavelmente bem em inglês. E conversamos bastante. Sua história de vida era difícil. Depois de 17 anos de um casamento pouco feliz, separou-se e só então começou a viajar. Uma espécie de descoberta tardia da liberdade, ou talvez da liberdade que sempre esteve ali, esperando uma oportunidade para se manifestar.
Havia algo de muito significativo naquela conversa. É curioso como, às vezes, encontramos pessoas com histórias tão diferentes das nossas, mas com inquietações e desejos tão semelhantes. A independência, a coragem de sair pelo mundo e a vontade de continuar descobrindo coisas não parecem ter idade. As duas eram um pouco mais novas do que eu — um e dois anos, respectivamente. O que, convenhamos, não representa propriamente uma diferença geracional!
Havia também uma família gaúcha, mas vivendo em diferentes partes do Brasil. Um jovem médico, bastante simpático, acompanhado da mãe, da irmã e da namorada. Ele e a irmã, super queridos, demonstraram especial apreço por mim. Sua mãe, uma mulher ainda relativamente jovem, na casa dos sessenta e poucos anos, contou-me que tinha receio de viajar sozinha. Também preferia não participar das atividades mais radicais, como a canoagem, a pesca de piranhas e as caminhadas pela selva. Enquanto os demais se aventuravam, ela permanecia descansando no lodge, que, diga-se de passagem, era um verdadeiro paraíso. Cada um tem seu próprio conceito de aventura, e tudo bem!

Por lá também havia muitos grupos de franceses e alemães. Chamou minha atenção a cautela — e até certa resistência — de alguns deles em experimentar nossos sabores e ingredientes regionais. Preferiam as frutas e os alimentos que lhes pareciam mais familiares. Uma pena, pensei. Afinal, experimentar a culinária local também é uma maneira de conhecer um lugar. Mas cada um tem seu ritmo, seu paladar e seus limites.
Entre os viajantes, havia ainda um casal que fazia uma espécie de maratona pelo Brasil. O roteiro incluía Rio de Janeiro, Nordeste — com passagem pela Bahia —, Paraná, Foz do Iguaçu, Manaus, Amazônia e São Paulo. Uma viagem e tanto! Quase um passeio por diferentes países, tamanha a diversidade de paisagens, culturas e realidades que nosso território abriga.
Mas me pareceu uma pena tentar conhecer tantas regiões distintas em uma única viagem, com tão pouco tempo para cada uma. Eles próprios comentavam que tudo estava muito corrido. E estava mesmo! Afinal, quando se tenta abraçar o mundo, corre-se o risco de apenas passar por ele.
Vê-se muito, fotografa-se bastante, percorrem-se distâncias enormes, mas quanto realmente se absorve? Quanto fica na memória, além das imagens? Conhecer exige tempo, disponibilidade e, sobretudo, a oportunidade de parar, observar, conversar e sentir.
Talvez seja essa uma das grandes lições de viajar: não importa apenas quantos lugares visitamos, mas o quanto nos permitimos vivê-los.
E há ainda os encontros. Aqueles que não estavam no roteiro, não aparecem nos guias turísticos e tampouco podem ser planejados. Pessoas que cruzam nosso caminho por alguns dias, compartilham uma mesa, uma excursão, uma conversa ou uma história e, de alguma maneira, deixam um pequeno pedaço de si.
No fim das contas, talvez sejam justamente esses encontros inesperados que fazem uma viagem continuar acontecendo dentro de nós muito depois de voltarmos para casa.
Cida Guimarães
03/10/26


