
Ainda sobre minhas viagens — ou melhor, sobre as viagens que marcaram este 2026…
Decidi conhecer a nossa selva depois de uma experiência igualmente fascinante na África do Sul, em maio. Talvez tenha sido justamente aquela viagem que despertou em mim a vontade de explorar um pouco mais a natureza, desta vez tão perto de nós, em meu próprio país.
Amei as duas experiências. Ambas foram marcantes, cada uma à sua maneira, mas confesso que me tocaram por caminhos bastante diferentes.
Quando penso na natureza, a Amazônia me impressionou de uma forma difícil de traduzir em palavras. Sua imensidão, a floresta densa, as árvores gigantescas, algumas centenárias, e aquela relação quase mágica entre a vegetação e as águas… Árvores que brotam das margens, avançam sobre os rios e se refletem neles. Mangues, igarapés, furos, rios que parecem não ter fim… Tudo compõe um cenário de uma grandiosidade tão extraordinária que, em muitos momentos, me senti parte de algo muito maior do que eu mesma. Uma natureza majestosa, viva, pulsante, que nos faz perceber nossa pequenez e, ao mesmo tempo, nossa conexão com o todo.


As cidades amazônicas também provocam sentimentos contraditórios. São um mosaico de beleza e feiura, riqueza e extrema pobreza, passado e presente. Os casarões coloniais nos transportam para outros tempos, enquanto a variedade quase infinita de frutas, ervas, temperos e produtos regionais nos lembra a dimensão continental do Brasil e a riqueza de sua diversidade.
Uma das minhas expectativas, confesso, era encontrar muitos animais. Não vi tantos quanto imaginava. Encontrei botos em abundância, búfalos a perder de vista, jacarés, cobras, pássaros, rãs e tantas outras formas de vida. Mas faltaram aqueles grandes animais que tanto me impressionaram na África do Sul: leões, elefantes, rinocerontes, zebras e enormes manadas de búfalos. Vi muitos búfalos, mas tranquilos, quase que domesticados.
Afinal, como dizem por lá, é um game drive: podemos encontrar os animais ou não. A natureza não obedece a roteiros, horários ou expectativas. E talvez esteja justamente aí parte de sua magia.
Mas, curiosamente, minha viagem à Amazônia acabou me proporcionando uma diversidade de experiências e encontros que superou muitas das minhas expectativas. Mais do que observar a natureza, pude interagir com ela, experimentar, aprender e, principalmente, me desafiar.
Visitei uma aldeia indígena e tive a oportunidade de conhecer um pouco de sua cultura. Observei uma indígena pintar os rostos e braços dos visitantes com carvão e urucum, utilizando desenhos carregados de significados, relacionados à força, à espiritualidade e a outros elementos de sua tradição. Um gesto simples, mas que nos aproxima de uma cultura ancestral e de uma relação com a natureza que tantas vezes esquecemos.
Nadei e cavalguei búfalos, interagi com golfinhos, pesquei uma piranha e um pirarucu, caminhei no meio da floresta, aprendi a identificar árvores centenárias, contemplei o nascer do sol em meio à imensidão verde; saímos a noite, ao por do sol para tentar vislumbrar jacarés, cobras, rãs, algo incrível, conseguido somente pela habilidade do Neto(guia) e do Roberto (condutor) que iluminavam as áreas com lanternas potentes. Difícil e impossível para mim, péssima fotógrafa, foi ser ágil o bastante para capturar cada instante. Também ajudei a remar uma canoa… Ufa! Quantas experiências!
Cada atividade representava uma pequena aventura, uma oportunidade de sair da zona de conforto e descobrir que ainda havia muito a experimentar. E, a cada desafio vencido, sentia-me um pouco mais forte, mais corajosa, mais dona de mim.
Também descobri um universo de sabores e conhecimentos que não faziam parte de meu saber. Os que mais amei: Bacuri e Tucumán. Ah, também enlouqueci com as castanhas do Pará “em natura”. São deliciosas, desmancham na boca. Frutas, temperos e ervas estranhos e atrativos. Vi de perto como o cacau é cultivado e processado, acompanhei sua transformação e, claro, degustei seus produtos. Conheci o preparo artesanal da farinha de mandioca e da tapioca, um trabalho que exige conhecimento, paciência e habilidade, transmitidos de geração em geração.


Mas talvez uma das experiências mais significativas tenha sido visitar uma comunidade de colonos e perceber, de perto, como é possível viver com tão pouco — às vezes, quase nada — e, ainda assim, construir o próprio sustento a partir dos recursos que a natureza oferece. Com criatividade, trabalho artesanal, conhecimento e simplicidade, aquelas pessoas produzem, aproveitam, transformam e compartilham. E o que mais me marcou foi a gentileza, a hospitalidade e a aparente serenidade com que vivem.
Saí de lá pensando em quanto associamos felicidade ao ter, ao acumular, ao consumir, quando talvez ela também possa morar em coisas muito mais simples: no trabalho que dá sentido aos dias, na relação com a terra, na solidariedade, na convivência e na capacidade de encontrar beleza no que se tem.
Entre a savana africana e a floresta amazônica, vivi experiências inesquecíveis. Uma me encantou com a imponência de seus animais; a outra me envolveu com sua floresta, suas águas, sua gente, seus sabores e seus saberes.
Foram viagens diferentes, mas que tiveram algo em comum: ambas ampliaram meu olhar e me fizeram perceber o quanto ainda há para conhecer, aprender e experimentar.
Talvez seja essa uma das maiores riquezas de viajar: não apenas conhecer novos lugares, mas permitir que eles nos transformem um pouco.
E, se há algo que esta viagem à Amazônia me deixou, foi a certeza de que ainda posso muito. Que a curiosidade não tem idade, que os desafios nos fortalecem e que nunca devemos perder a disposição de nos aventurar.
Afinal, o mundo é imenso, a vida é breve e ainda há tanto por descobrir!
Cida Guimarães
05/10/26


