
Dois “venenos” já amplamente discutidos, especialmente na obra Orgulho e Preconceito, de Jane Austen- que nos impedem de crescer e de nos relacionarmos com os outros de forma mais virtuosa.
O orgulho, muitas vezes, nasce silencioso. Não chega como excesso — mas como defesa. Começa em pequenas certezas: eu sei, estou certo, não preciso ir além. E, sem perceber, vamos nos fechando.
Há um tipo de orgulho que sustenta —que nos dá dignidade, contorno, respeito por nós mesmos.
Mas há outro… que endurece. Que levanta muros onde antes havia caminhos.
E é nesse ponto que ele se encontra com o preconceito.
Porque o preconceito também nasce assim: de um olhar que não se permite ver, de uma pressa em definir, de uma necessidade quase invisível de se colocar acima.
O orgulho diz: “eu sei quem você é.” O preconceito responde: “e não preciso ir além disso.”
E assim, o encontro deixa de acontecer. O outro se torna ideia, rótulo, redução.
E nós — sem perceber — ficamos mais sós.
Talvez o problema nunca tenha sido o orgulho em si, mas quando ele deixa de ser raiz e passa a ser muro. Quando já não sustenta, mas separa.
Porque, no fundo, todo preconceito nasce de um olhar que não quis ver — e todo orgulho endurecido, de um coração que teve medo de sentir. E assim seguimos, protegidos… mas distantes.
Muros

Eu sei mais. Sou melhor.
E você? Não chega aos meus pés.
Prefiro a distância —não me contaminar.
Ergo muros, dou nomes, invento verdades que me protegem do desconhecido.
Mas o que chamo de certeza é, talvez, medo.
O que chamo de escolha é afastamento.
Barreiras. Desconhecimento.
Conceitos frágeis disfarçados de convicção.
Triste pensar — mais triste ainda, agir.
Porque, ao me fechar do outro, vou, aos poucos, me esvaziando também.
E onde levantei proteção, resta apenas um deserto de encontro.
Cida Guimarães
03/06/2026

