
Estava pensando em como o mundo — e nós mesmos, como país — estamos divididos. Polarizados, entrincheirados em nossas distintas visões de mundo, agarrados às nossas certezas e, muitas vezes, com tão pouca disposição para olhar além delas, tentar compreender o outro e reconhecer que pode haver algo de válido naquilo em que ele acredita.
Foi então que ouvi a mensagem do dia de meu caro professor Bryan de Souza, em nossa escola de leitura estoica. O tema, inspirado nas reflexões de Marco Aurélio, era:
“Fomos feitos uns para os outros”.
Uma ideia tão simples, mas de uma profundidade imensa. Nossa interdependência. O fato de que não fomos feitos para viver isolados, mas para compartilhar a existência, apoiar-nos e cuidar uns dos outros. Aristóteles já nos lembrava de que: “somos animais sociais”: precisamos da convivência, dos vínculos e da vida em comunidade para nos realizarmos como seres humanos.
É evidente que somos diferentes. Há uma imensa diversidade cultural, racial, ideológica e comportamental que nos distingue. Trazemos histórias, criações, crenças e experiências que moldam nossas maneiras particulares de enxergar o mundo. Não somos iguais, tampouco perfeitos.
Mas será que nossas diferenças precisam necessariamente nos afastar?
Se mantivermos aberta a disposição de compreender, se nos permitirmos olhar para o outro sem vendas ou antolhos, poderemos ampliar nosso próprio horizonte existencial. Ao nos abrirmos para perspectivas diferentes das nossas, aprendemos, questionamos nossas certezas, revemos conceitos e, sobretudo, crescemos como indivíduos.
Talvez seja justamente aí que resida um dos grandes desafios da existência: encontrar harmonia entre os contrários, compreender que a vida também se constrói entre tensões e diferenças. Como em um quebra-cabeça, cada peça tem seu formato, sua particularidade, e é justamente o reconhecimento dessas diferenças que permite formar uma imagem maior. Não precisamos ser iguais para encontrar um lugar de conexão.
E penso em nosso país, tão profundamente dividido, sobretudo depois de eleições que acirraram os ânimos, mobilizaram paixões e aprofundaram distâncias. O envolvimento político, legítimo e necessário em uma democracia, acabou, para muitos, ultrapassando os limites do debate e obscurecendo a capacidade de observar, ponderar e reconhecer nuances. A paixão, quando se sobrepõe à reflexão, pode nos tornar prisioneiros de nossas próprias convicções.
Tornou-se fácil classificar o outro como louco, ignorante ou desprovido de qualquer razão. Mais fácil ainda é desqualificar antecipadamente suas ideias, sem sequer se dispor a escutá-las. Mas será que podemos realmente compreender alguém quando já decidimos, de antemão, que nada do que essa pessoa diga merece ser considerado?
Não se trata de abrir mão dos próprios princípios, de relativizar valores ou de concordar com tudo em nome de uma falsa harmonia. Trata-se de despir-nos dos preconceitos, dos rótulos e das ideias preconcebidas, para tentar compreender o que está por trás das posições de cada um.
O que as alimenta? Quais experiências, medos, expectativas e convicções as sustentam?
É preciso disposição para escutar, coragem para rever posições e humildade para reconhecer que não somos donos absolutos da verdade. Talvez possamos até incorporar algo de positivo que venha do pensamento alheio, sem que isso represente uma renúncia àquilo em que acreditamos.
A conciliação não significa ausência de divergências. Significa encontrar maneiras de conviver com elas sem transformar o diferente em inimigo. É buscar aquele ponto de equilíbrio em que o respeito prevaleça sobre a hostilidade e a compreensão seja maior do que a necessidade de vencer uma discussão.
Afinal, a paz não nasce da eliminação das diferenças, mas da disposição de construir pontes sobre elas. Só há possibilidade de harmonia quando a busca pelo entendimento e pela conciliação é capaz de superar a intolerância e o desejo permanente de confronto.
Não podemos ser ilhas sem pontes de acesso. Precisamos uns dos outros. E talvez o primeiro passo para reconstruir nossas conexões seja simplesmente este: voltar a olhar para o outro como um semelhante, e não como um adversário a ser derrotado.
Cida Guimarães
29/10/26

