
Luz e sombra, calor e frio, sol e chuva, amor e ódio, alegria e tristeza — os opostos se alternam, se tensionam, se entrelaçam. Não apenas se chocam, mas também se revelam e se iluminam mutuamente.
Nada se sustenta isolado. Não reconheceríamos a luz sem a sombra, nem a alegria sem a tristeza. E, ainda assim, quando habitamos um dos polos, voltamos o olhar para o outro, como se nele residisse algo que nos falta.
Há, nessa dança, uma intensidade breve, quase fugaz, que nos atravessa e deixa um rastro de incompletude.
Assim somos nós: tecidos de opostos. Em certos momentos, eles se confrontam; em outros, estranham-se, como se não pertencessem ao mesmo ser. E é nesse desencontro que nasce a inquietação — o desejo de unidade, de inteireza.
Ser inteiro, talvez, não seja eliminar as contradições, mas reconhecê-las como parte de uma mesma tessitura. Aceitar que o lado solar que nos habita ilumina, mas também projeta sombras; que aquilo que recusamos não desaparece, apenas se oculta.
Há uma sabedoria silenciosa em sustentar essa tensão sem ruptura. Em permitir que a luz brilhe quando chega, e que a sombra cumpra seu movimento quando se impõe. Em não negar as marés, mas confiar que elas também limpam, renovam, transformam.
E talvez seja nessa aceitação lúcida — sem ilusões, mas também sem dureza — que algo em nós se aquiete. Não a ausência de opostos, mas a sua integração. Não a perfeição, mas uma forma mais profunda de harmonia.
Uma inteireza possível, feita não de pureza, mas de consciência.
E continuamos na caminhada, em busca de união, ou, talvez, de um convívio salutar entre as forças opostas, que nos habitam.
Cida Guimarães
11/07/26
Para fechar esta postagem, um lindo poema de Drummond sobre AMAR.
AMAR é transpor barreiras, nossas e do outro; lidar com opostos , transcender.
AMAR
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade


