
Quando nos ausentamos de nós mesmos, o mundo inteiro se torna ausência.
Há instantes em que habitamos um deserto interior — não de areia, mas de sentido.
Sem bússola, sem coordenadas, sem o eixo que nos orienta, vagamos. Procuramos sinais, direções, qualquer vestígio que nos devolva a um lugar reconhecível. Mas as setas se multiplicam, contradizem-se; os caminhos se alongam em círculos, como se o próprio percurso fosse uma pergunta sem resposta.
Talvez seja essa a condição humana: atravessar encruzilhadas sem garantias, escolher sem jamais possuir a certeza plena. A liberdade, que nos constitui, também nos inquieta — porque escolher é, inevitavelmente, renunciar.
Quando volto o olhar ao que fui, vejo uma geografia feita de desvios: atalhos que prometeram rapidez, becos que ensinaram limites, caminhos interrompidos que, ainda assim, me transformaram.
Nada foi em vão — tudo redesenhou, à sua maneira, o mapa que hoje habito.
Agora, o horizonte parece mais nítido — não porque o caminho seja simples, mas porque o tempo se revela mais finito. E é justamente essa consciência que exige outra qualidade de escolha: menos dispersa, mais essencial.
Talvez não se trate mais de buscar o caminho perfeito, mas de habitar, com lucidez, aquele que se escolhe. E, nesse gesto silencioso, reaprender a coincidir consigo mesma.
ONDE O SILÊNCIO ME DEVOLVE
Quando me afasto de mim, o mundo também se afasta.
Há dias em que sou deserto —não de areia, mas de sentido.
Caminho sem bússola, sem céu que oriente, sem nome para o que procuro.
As setas se multiplicam, confusas, como vozes que não dizem.
E sigo — entre encruzilhadas e trevos —onde cada saída é também perda. Olho para trás: meu caminho é feito de desvios, atalhos que prometeram chegada, becos que me ensinaram limites, estradas interrompidas que, ainda assim, me fizeram.
Hoje, o horizonte se desenha com outra luz —não mais fácil, apenas mais breve.
E talvez seja isso que me chama: não a escolha perfeita, mas a escolha inteira.
Ficar. Escutar. E, no silêncio que resta, reaprender o caminho de volta para dentro de mim.
Cida Guimarães
15/07/26


