
Há sentimentos que chegam como brisa — tocam e passam. Outros, no entanto, chegam como tempestade silenciosa: não fazem barulho por fora, mas reorganizam tudo por dentro.
A limerência é assim.
Não nasce exatamente do encontro com o outro, mas do encontro com aquilo
que imaginamos que o outro possa ser. É menos sobre quem está diante de nós e mais sobre o que, dentro de nós, anseia por existir.
De repente, o pensamento se torna território ocupado. A pessoa surge nas entrelinhas do dia, nos intervalos, nas pausas, nos silêncios. Um gesto pequeno vira sinal. Uma ausência vira dúvida.
E a dúvida… alimenta ainda mais a chama. Porque a limerência se nutre do “talvez”.
Talvez ele sinta. Talvez ela pense. Talvez isso venha a ser.
E nesse talvez, o coração constrói moradas onde ninguém, de fato, entrou.
Há beleza nisso, sim. É a prova de que ainda somos capazes de sentir com intensidade, de criar mundos internos ricos, quase poéticos.
Mas há também um risco delicado: o de se apaixonar por uma história que só existe de um lado. Diferente do amor — que se revela no encontro, na presença, na construção —a limerência vive da antecipação, da idealização, do desejo de resposta.
Ela pulsa mais na ausência do que na realidade. Talvez por isso doa tanto.
Porque, no fundo, não é o outro que falta. É a confirmação de um sonho que nunca chegou a ter chão.
E então, aos poucos, vem o aprendizado — quase sempre silencioso: o de recolher as projeções, de olhar o outro como ele é, e, sobretudo, de voltar para si.
Porque aquilo que se buscava no outro talvez fosse, desde o início, um eco de algo que pedia morada dentro. E quando isso acontece, quando o olhar retorna e o sentir encontra abrigo em si mesmo, a limerência se desfaz — não como perda, mas como compreensão.
E o coração, mais inteiro, aprende a esperar menos do talvez e a reconhecer, com mais clareza, o que é presença de verdade.
Cida Guimarães
05/08/26


